domingo, 28 de setembro de 2008

A Luz e a Escuridão [6]

A luz se transformou em trevas na Ferrari. A luz, que deveria guiar em bom caminho, trazer segurança e facilitar a vida do time italiano fez o papel inverso. Produziu um cena digna de filmes de comédia, acabou com a corrida do piloto que disputa o título e atingiu em cheio o ego da maior equipe da Fórmula-1.

Durante toda a história da humanidade eu jamais vi a luz trazer tantos problemas como hoje em Cingapura. Logo a luz, sempre associada ao progresso e à melhoria de vida dos indivíduos. Logo a luz, principal atrativo do gp notruno de Cingapura. Logo ela, símbolo da modernidade, que por sua vez tem como um de seus maiores símbolos o próprio automóvel, foi a responsável pela possível derrocada da Ferrari em 2008.

Na verdade não foi a luz a vilã da noite asiática e sim seu uso incorreto. O piloto, dentro de seu apertado cockpit, preocupado com mil e um fatores que podem interferir em uma corrida, é totalmente dependente da indicação do “homem do pirulito” no pit stop. O piloto não pode olhar para trás, ficar preocupado com o que acontece ou deixa de acontecer ao seu redor porque a maior preocupação é perder o menor tempo possível. Por isso existe o pirulito. Mas a Ferrari, símbolo máximo da velocidade e da eficiência nas pistas, achou que o “pirulito” era algo arcaico, inadequado, talvez “cafona” para um esporte tão baseado em tecnologia de ponta. Os italianos inventaram o sinalizador eletrônico, com luzes verdes, laranjas e vermelhas, tal qual num semáforo. Moderno, elegante, um passo a frente da concorrência, algo que demonstrava a vanguarda e a inovação. Tudo uma grande bobagem.

Nenhuma dúvida paira: o velho pirulito, o antigo, ultrapassado, mas eficiente pirulito teria evitado toda a dor da cabeça ferrarista em Cingapura. No momento em que o problema da bomba de combustível fosse detectado, a partida de Felipe Massa seria abortada imediatamente. O brasileiro não iria sair carregando a mangueira e os mecânicos, proporcionando um razoável risco de incêndio e de ferimentos sérios para o staff da Ferrari. O carro iria ficar parado, a mangueira seria retirada e Massa partiria normalmente de volta à pista. Perderia algum tempo, evidente, mas nada que se compare ao que foi perdido na sua parada no fim dos boxes, aguardando os mecânicos já ocupados com o pit stop de Raikkonen. Mecânicos que tiveram que atravessar todo o pit lane, fazer algum esforço, retirar a mangueira e só então devolver Massa à pista. Com o pirulito, o fora de moda e obsoleto pirulito, Massa não seria punido com um drive-through que simplesmente acabou com suas chances de pontuar. O prejuízo seria muito minimizado.

Quem se aproveitou foi Hamilton. Se a corrida seguisse seu rumo normal, como nas 14 voltas iniciais, o inglês talvez sofreria o assédio de Raikkonen, que voava baixo, como um torpedo endereçado à McLaren de Lewis. Certamente a Ferrari preparava alguma tática para que Kimi estivesse a frente de Hamilton pelo menos em algum momento da prova, talvez com um pit stop mais curto. Mas a entrada do Safety Car mudou tudo, a luz tornou-se escuridão para Massa e o líder da classificação se viu cada vez mais líder. Com os 84 pontos que tem nas mãos, Hamilton pode seguir com segurança nas próximas etapas. Não precisa arrsicar, precisa apenas limitar Massa, para poder correr o sério “risco” de, dependendo da situação das próximas corridas, chegar ao Brasil com o caneco nas mãos. Para ser campeão, o menino-prodígio precisa apenas de três segundos lugares na próximas três etapas.

Sobre Raikkonen é a velha história: está perdido entre a própria desmotivação e a má adaptação ao F-2008. São essas as raízes de seus problemas na Ferrari. Mas não são desculpa para um campeão do mundo passar 4 provas seguidas sem pontuar. “Vergonhoso”, “constrangedor”, “fora da realidade” e “desinteressado” são alguns termos que serão usados para se referir ao desempenho do finlandês em 2008. Com toda a justiça.

No fim das contas, a luz foi a grande personagem do GP Cingapura. Também pelas razões óbvias: corrida noturna precisa de uma eficiente iluminação artificial, e ela deu conta do recado com louvor. Mas a luz do pit stop da Ferrari, essa fez a equipe italiana pagar mico outra vez. Foi a repetição do episódio de Valência, em que Raikkonen, também orientado pelo led verde que se acendeu, saiu carregando o mecânico. Também em Valência, a Ferrari quase joga fora a corrida de Massa ao liberar o brasileiro justamente no momento em que uma Force India deixava os boxes simultaneamente. Em todos os 3 casos os pilotos são os menos culpados porque são condicionados a confiar cegamente na indicação do pirulito ou, no caso da Ferrari, do led. Pelo menos a luz que causou os problemas era verde, talvez sinalizando a esperança de que a equipe encerre seu festival de equívocos e tenha vigor para tentar uma (improvável) virada. O time italiano liderou praticamente todo o campeonato de construtores até aqui e perdeu a ponta hoje para a McLaren. São trevas e mais trevas, com um ponto luminoso verde que orquestra o caos nos boxes italianos.

5 comentários:

Felipão disse...

Perfeita análise

Falou tudo

Principalmente a respeito do Kimi, que anda bastante desfocado nessa temporada

sérgio rezende disse...

Será que a Ferrari não se cansa de atrapalhar seus pilotos? Muito bizarro o que aconteceu hoje. Desse jeito Hamilton é praticamente campeão.

Jonas disse...

Comentário inspirado rapaz. Muito bom.

Como disse o Felipão, você falou tudo. Tudo e mais um pouco.

Parabéns!

Maurício Ribeiro disse...

Excelente jogo de idéias. A luz de Cingapura não fez bem à Ferrari. Foi uma trapalhada (entre as muitas) que pode ter tirado o título do Massa. Lamentável.

Mas acho que não tem nada paerdido. Em 3 corridas Hamilton também pode ter problemas. É só lembrar de 2007!

Abraço

Fábio Andrade disse...

Felipão: Kimi se perdeu. É algo estranhíssimo que acontece com ele;

Sérgio: os italianos parecem querer entregar o caneco ao Hamilton;

Jonas e Maurício: muito obrigado!