domingo, 12 de outubro de 2008

Sessão-Coruja/Japão - Results & Coments [4]

Ensaio sobre a cegueira

Se o ano de 2008 tiver que deixar uma marca na história da F-1, ela será a surpresa. Essa palavra de 8 letras é a mais repetida do ano até aqui. Corridas que mudam de cara logo no início, favoritos que caem, zebras que vencem e uma teimosa indefinição têm feito desse mundial um dos mais divertidos para se assistir.

Os líderes do campeonato deram um show, uma aula sobre o que não deve ser feito por quem deseja ser campeão. A largada foi o momento em que se viu isso com clareza para Hamilton. O inglês, que passou a semana dizendo que pilotaria pelo título, descumpriu sua promessa de pensar no campeonato. Não tolerou a boa partida de Raikkonen e quis reaver a posição na marra, no fim da reta. Bloqueou Kimi (atitude que lhe renderia um drive-through) e perdeu muitas posições, tudo isso sem a mínima necessidade. Hamilton podia muito bem negociar a ultrapassagem com Kimi numa boa, afinal era (e ainda é) líder do campeonato com boa vantagem e tinha o principal rival numa distante 5ª posição. Mas o inglês insiste em ser arrojado além da conta e em confiar demais em si mesmo. Bom, porque ele não desiste nunca e nos brinda com grandes lances? Pode ser, mas a coisa mais emocionante que Hamilton conseguiu protagonizar hoje foi a rodada, fruto da disputa de posição com Massa nas primeiras voltas.

Em resumo: a largada deixou a impressão de que todo mundo quis cruzar a primeira curva passando pelo mesmo lugar. E não é preciso ser nenhum gênio da física para supor que dois ou mais corpos não podem ocupar a mesma posição no mesmo espaço. A partida confusa resultou em perdas de posições, especialmente para Hamilton e Massa. Em determinado momento do começo da prova (que foi de tirar o fôlego, é bom que se diga) o brasileiro superou o britânico e aí se viu o grande prejuízo que foi a largada kamikaze do piloto da McLaren. Na sempre impetuosa gana por ganhar posições, Hamilton partiu pra cima de Massa na chicane e aí se desenhou o lance mais polêmico da corrida.

Massa tentou defender a posição, retardou a freada e perdeu o ponto de tangência da primeira perna do “S”. Hamilton contornou a curva por dentro, mas ficaria por fora na curva seguinte. Massa, que tentava corrigir o erro, colocou duas rodas de sua Ferrari na grama em “embicou” o F-2008 pra cima de Hamilton, que já tinha mais de meio carro de vantagem. Não deu outra: os dois se tocaram, Hamilton rodou, Massa seguiu e parecia que, naquele momento, o brasileiro conseguiria diminuir a desvantagem na tabela do mundial.


Mas na F-1 de hoje lances como esse são logo motivo de investigação dos comissários de prova e eles decidiram punir Massa com um drive-through. O problema é que na hora de julgar atitudes como as do parágrafo aí de cima, caímos na vala da subjetividade. Eu achei a punição a Massa correta. Vi uma pontinha de má-fé na manobra do ferrarista, que não aceitou a passagem limpa de Hamilton. Outros não concordarão, certamente vão argumentar que Hamilton fechou Felipe. Não vi isso em momento algum. Vi um Massa com duas rodas fora da pista tentar recuperar uma posição na marra e apelar para uma manobra excessivamente dura. Mas não é nessa discussão que quero ficar.

Hamilton também foi punido com um drive-through por causa de sua manobra de largada, em que teria bloqueado Raikkonen. E ainda durante a corrida surgiu a informação de que o incidente secundário envolvendo Massa e Bourdais estava sob investigação e o veredicto sairá após a corrida. Exceto no caso da disputa entre Massa e Hamilton (em que reitero: achei justa a punição aplicada a Felipe por notar um exagero em sua tentativa desmedida de manter a posição), as outras punições me trazem uma sensação de irritação enorme. Juro que não me lembro (a não ser que esteja muito enganado) de ter visto alguma deslealdade na largada de Hamilton. Vi nervosismo, vi a famosa falta de paciência e a vontade de resolver a corrida na primeira curva, mas não enxerguei nenhuma manobra perigosa e/ou desleal. No caso Massa-Bourdais então, não vi nada. O francês saía do boxes, o brasileiro seguia pelo traçado normal e tentou dividir a curva. Os dois não se entenderam e houve um suave toque. Exageros das duas partes sem maiores conseqüência para ambos. Apenas.

Mas a F-1 insiste em sua revoltante caça às bruxas. Um lance mais agressivo, num tom um pouco menos formal, já levanta suspeitas dos comissários. Falei sobre essa questão no GP Cingapura, em que também aconteceram várias canetadas em seguida (naquela ocasião motivadas pela regra que fecha o pit lane em caso de Safety Car), e continuo a não me conformar. Punição tem como objetivo impedir que um competidor ganhe vantagem indevida (como no famoso caso Hamilton-Raikkonen em Spa ou na colisão Massa-Hamilton hoje) e/ou ponha em risco a segurança de seus pares. Mas do jeito que as coisas seguem na F-1, os comissários estão virando árbritos, como no futebol, e decidindo corridas e campeonatos no apito. O excesso de rigor parece ter como meta acabar com as disputas de posições e tornar a F-1 um passeio no parque, em fila indiana.

Alguém dentro da FIA precisa acordar para essa característica asquerosa que a categoria ganhou de um tempo pra cá. Essa cegueira da federação, que não enxerga excessos nas inúmeras investigações levantadas a cada corrida, pode levar o lado esportivo da F-1 ao descrédito. A coisa está ficando muito impessoal, asséptica, livre de qualquer risco. Isso não é automobilismo. Automobilismo é rendimento total, é briga ferrenha, é espremer no canto da pista, é levar uma disputa às últimas conseqüências, claro, respeitando o adversário e as regras de esportividade. As punições sem sentido distribuídas a cada corrida estão matando esse lado nervoso e saboroso da F-1. É com pesar que me certifico disso.

Entre os mortos e feridos da chuva de canetas assassinas, Hamilton sai de Fuji num lucro razoável. Não pontuou, mas manteve-se 5 pontos a frente de Massa, que só marcou dois pontinhos magros com o 7º lugar. Felipe não teve um fim de semana digno de quem quer ser campeão: foi mal na classificação e beirou a deslealdade em seu lance com Hamilton. Precisa vencer na China e depende dos resultados de Lewis para empurrar a decisão até o GP Brasil.

Hamilton sorri, apesar do péssimo 12º lugar. Se vencer na China no próximo domingo e Massa chegar em 5º ou pior posição, o britânico já será proclamado campeão com uma corrida de antecedência. Seria um fim de campeonato improvável depois de tanto equilíbrio.

Resumo da obra: os dois aspirantes a campeão demonstraram nervosismo e ímpeto além da conta. No caso particular desse campeonato, melhor para Hamilton.

*Atualizado em 12/10/08, às 06H32min

5 comentários:

Net Esportes disse...

Pra mim o Hamilton não consegue manter a calma, e o Massa na manobra que bateu no inglês foi bem imaturo, conseguiu dois pontinhos mas prejudicou totalmente sua prova......

Net Esportes

sérgio disse...

Hamilton e Massa têm que se controlar mais. Eles cometem muitos erros, não lembram grandes campeões como Senna e Schumacher.

Eu também achei algumas punições um pouco exageradas, a do Hamilton principalmente. Pareceu que os comissários não quiseram interferir no campeonato e arranjaram uma desculpa para também punir o Hamilton.

A punição do Bourdais favoreceu Massa e deixou mesmo a impressão de que a FIA quer prolongar a disputa.

Paulo Maeda™ disse...

eu discordo de vcs. Achei justa a punição para Hamilton, não importa se ele tocou ou não em alguém. Bem como vc disse Fabio ele "bloqueou" Raikonen e não mediu o tamanho de sua ação, provocando toda aquela bagunça na primeira curva.... acho isso passível sim de punição. A de Massa com certeza foi merecida. Já a do Bourdauis fiquei na dúvida, quem deve "tirar" o carro, quem está vindo rasgando a reta, ou quem está saindo??? Sei não.

Jonas disse...

Legal, Fábio.

Eu concordo e acho que as punições passaram um pouco da conta. Se todas as três punições de hoje fossem nos anos 80 nada aconteceria. Hoje são outros tempos, infelizmente.

É como o Sérgio disse: os dois que brigam pelo título precisam se controlar mais. Os erros deles deixam a disputa divertida mas a qualidade é duvidosa.

Fábio Andrade disse...

Net: a impressão que eu tive foi a de Massa se deseperou ao ver Hamilton ultrapassando e quis reaver a posição de qualquer jeito. No fim das contas saiu com 2 providenciais pontinhos;

Sérgio: realmente, nada que se compare ao grandes campeões. Claro, Senna e Schumacher não eram imunes a erros, mas nos momentos de decisão dificlmente se deixavam levar pela pressão. De qualquer forma, a geração atual promove uma disputa divertida;

Paulo: Hamilton largou mal e tentou garantir a posição de forma dura. Ele pecou ao fazer isso porque não precisava, estamos no fim do campeonato e ele é líder. Mas isso não é motivo de punição, na minha opinião. Acho que ele foi duro, assumiu riscos (desnecessários) e pagou por isso perdendo posições. Mas não vi motivos para puni-lo;

Jonas: você chegou no grande ponto. Até mesmo o lance do Massa e do Hamilton, o mais agressivo da corrida, passaria em branco, creio eu. Hoje em dia os comissários estão se intrometendo demais. Vão virar árbritos.