terça-feira, 17 de março de 2009

Saudade de 15 Anos

Muita gente espera por um campeonato de F-1 equilibrado em 2009. Sou um deles, claro. Porém, mais do que um campeonato equilibrado, imagino que estamos também diante de um campeonato potencialmente confuso.

O ano de 2009 vai reunir em seu balaio a crise financeira (que obrigou as equipes mais gastadeiras a pisar no breque com a grana), as mudanças radicais nas configurações dos carros (KERS e toda a polêmica em torno de sua utilidade inclusos; pneus slicks) e agora uma mudança radical no sistema de pontuação: a partir de agora o campeão será o piloto com mais vitórias durante o ano e os pontos apenas funcionarão como critério de desempate. É uma das definições da reunião do Conselho Mundial da FIA, ocorrida hoje em Paris.

Sim, a FIA ousou. A vitória desse modelo de classificação é, sob um dos prismas, a vitória política de Bernie Ecclestone, o homem do dinheiro na F-1. O gerente da área comercial da categoria já havia proposto um sistema “olímpico”, em que a pontuação como conhecemos hoje seria ignorada para dar lugar a um quadro de medalhas. O piloto com mais vitórias seria o campeão e ponto. A sugestão de Ecclestone não foi recebida com muito entusiasmo, mas a FIA agora aprova um sistema muito parecido.

A reunião de hoje no Conselho Mundial é uma sonora derrota para a FOTA, a associação que representa as equipes. A partir de agora os integrantes da liga dos times devem começar a perceber que apenas se juntar sob uma bandeira e discutir a F-1 em conjunto não resolve se não houver real representatividade política dentro da FIA. A sugestão de alterar o quadro da classificação para o sistema 12-9-7-5-4-3-2-1 que foi apresentada pela entidade dos construtores foi rejeitada.

Mas o que há por trás da decisão do conselho? A tentativa desesperada de mostrar serviço, de aparentar estar trabalhando para aumentar o show.

O campeonato que começa no próximo dia 29 começa a se parecer muito com o de 1994, em que pesem as proporções de superlatividade de tudo o que aconteceu há 15 anos. Lá, a FIA também resolveu mudar as regras do jogo, por dois motivos, um deles sendo causa do outro: a superioridade Williams era astronômica e, por conseqüência, gerou um grande chororô da parte das equipes que não conseguiam acompanhar a evolução tecnológica do time de Grove. A chave da discórdia era a tal suspensão ativa, que possibilitava aos pilotos de sir Frank a permanente sensação de que o carro planava sob um tapete liso, mesmo nas pistas mais onduladas. A FIA então resolveu banir o dispositivo para tentar devolver a igualdade de condições à competição e ninguém pode dizer que a federação não conseguiu. No final do ano o campeão não era do time de Frank Williams, tampouco a equipe era a de Frank. Uma pena que para atingir o objetivo desejado, a temporada de 1994 tenha sido uma das que apresentou o maior número de distúrbios do race control, sem falar nos acontecimentos de Ímola e da Austrália.

Em 94 o desejo era o de dar show. A FIA se incomodava com a posição da Williams, anos-luz a frente do restante das equipes. A gigante Ferrari se mostrava claramente insatisfeita por não conseguir acompanhar as equipes de ponta. Uma pena que o maior show daquela temporada não foi realizado na pista, mas sim em pirotecnias da federação que quis decidir um título com o apito na mão.

Agora é só transpor a situação para 2009: a federação continua querendo dar show, mesmo que a situação de superioridade das equipes de ponta seja mais amena do que a de 15 anos atrás. Para tentar atingir seus objetivos fez uma mudança radical nas especificações do carro, todas elas com eficiência duvidosa até aqui. Agora a FIA anuncia essa tremenda mudança na tabela de classificação, rompendo com um precedente histórico que sempre marcou a F-1: o campeão nunca é apenas o cara que vence corridas memoráveis, mas também aquele que é racional o suficiente para se contentar com um pódio, em determinadas situações.

É a maior mudança de mentalidade em muitos anos na F-1. Com a vitória sendo praticamente a única situação de validação do título, será curioso ver o que figuras afobadas como Lewis Hamilton e, sobretudo, Felipe Massa farão num ano em a disputa será na base do tudo ou nada. Mas será temeroso perceber que na atual filosofia de “não me toques” que rege a FIA, disputas de posição um pouco mais acaloradas poderão facilmente descambar para a chuva de punições, muitas vezes injustificadas, tal como em 1994. Fora a hipotética possibilidade de que as mudanças nas regras de projeção e construção dos carros gerem interpretações novas da parte dos projetistas. Se essas inovações (como, por exemplo, um ajuste do KERS que gere menos desgaste de pneus) forem percebidas por apenas uma ou outra equipe, as outras se sentirão no direito de reclamar. Se a FIA seguir o exemplo de 1994, quando a avalanche de reclamações transformou a entidade numa mina de punições e multas, 2009 pode repetir um dos anos mais tumultuados de toda a F-1.

A FIA ousou, enfim. Mas pode ter ousado para o lado errado.

3 comentários:

Marcos Antônio Filho disse...

Realmente essa foi aposta arriscadíssima, termos uma temporada injusta e repleta de jogos de equipe, enfim uma temporada enfastiante. Conseguiram a proeza de estragar uma temporada que prometia ser emocionante. lamentável

Paulo Maeda™ disse...

eu nao acredito até agora q eles puderam pensar numa idéia ridícula como essa. Qto mais em pensar em implementá-la.Isso é simplesmente ridículo e pra mim não dá pra considerar isso como uma atitude para igualar coisas num campeonato...
aff

Fábio Andrade disse...

Tudo isso para, dias depois, eles voltarem atrás.

Não dá pra entender a falta de um plano de vôo para a categoria máxima do esporte a motor.