quinta-feira, 5 de março de 2009

O Melhor e o Pior de... Gerhard Berger

Em nova crise de monotonia proporcionada pela chatíssima pré-temporada, o De Olho na F-1 retorna a seu momento eleitoral. O escolhido da vez: o austríaco Gerhard Berger.

“Um piloto simpático” é o que se costuma dizer de Berger. Mas ele é mais do que isso. Está, é bem verdade, na galeria das promessas não cumpridas da F-1. Piloto de inegável talento, talvez tenha dado o azar de ser contemporâneo a Prost, Senna, Mansell e Piquet. Quando os 4 grandes se retiraram, Berger já não era moço o suficiente para se fazer notar entre jovens como Hill, Villeneuve e Schumacher.

Gerhard Berger é mais do que apenas um piloto simpático. Com 210 largadas, está entre os 10 pilotos com mais corridas disputadas na categoria máxima. Acumula passagens pela McLaren de ouro dos anos 80/90 e pela problemática Ferrari do mesmo período. Apesar das passagens por times tradicionais, seu número de vitórias é modesto: são 10, entre triunfos na Ferrari, McLaren e Benetton. Nessa última protagonizou uma curiosa coincidência: venceu a primeira corrida de sua carreira de do time, no México, em 1986, e também na Benetton subiu ao lugar mais alto do pódio pela última vez, em 1997 na Alemanha, naquela que foi a última vitória da equipe antes de ser vendida para a Renault em 2002.

Razões para explicar o magro número de êxitos de Berger são simples: carro de ponta mesmo, o austríaco só pilotou em uma equipe: a McLaren. E só durante dois anos (1990-1991). Nesse período dividiu espaço com Senna, semi-Deus na equipe chefiada por Ron Dennis. Em 1992 o austríaco até ganhou duas corridas (Canadá e Austrália, a última foi em sua despedida da McLaren), mas não fez nem cócegas às Williams do outro mundo que deram a Mansell seu único mundial.

Berger é célebre por ultrapassar a barreira do coleguismo e tornar-se amigo pessoal de Ayrton Senna, coisa raríssima já que o tricampeão, com sua gana extremada pela vitória, seu espírito competitivo afiado e sua desconfiança espinhosa, colecionou desafetos na F-1. Berger foi exceção. De 1990 a 1992, quando foi parceiro de Ayrton na McLaren, o austríaco viu-se como um dos poucos homens em que Senna confiava no circo da F-1. Continuaram com o bom relacionamento mesmo depois que Gerhard partiu para sua segunda jornada em Maranello, e se falavam regularmente até o fim da vida do brasileiro.

Berger foi um bom piloto. Tanto assim que encontrei dificuldades em encontrar maus momentos em sua carreira (ou seria minha simpatia pelo Gerhard que me cegou?) e precisei apelar para situações aparentemente corriqueiras.

Berger é, enfim, um homem que merece ser chamado de honesto (ou nem tanto, como descobriremos na segunda opção de votação dessa enquete).

O Melhor

Redenção Rossa

O ano de 1988, em se tratando de revezamento na lista de vencedores, foi tedioso. O MP4/4 da McLaren deu a Ayrton Senna e Alain Prost uma superioridade indisputada. Somente uma das 16 corridas daquele ano não foi vencida pelos pilotos de Ron Dennis. E havia de ser justamente o Grande Prêmio da Itália. E havia de ser com dobradinha da Ferrari. E havia de ser em circunstâncias dramáticas.

Aquela era a primeira corrida em solo italiano que não contaria com a folclórica figura de Enzo Ferrari. O Comendador falecera pouco tempo antes e os tiffosi sentiam-se órfãos da entidade que forneceu ares de mito ao corcel negro. Com sua mística personalista, Enzo parece ter calculado a comoção que aconteceria naquele 11 de setembro nada sombrio para os fanáticos ferraristas.

A primeira fila da classificação era previsivelmente branca e vermelha. Atrás, estavam os bólidos rossos. Na largada, Senna pula na frente, e passa a imprimir o inalcançável ritmo que só a McLaren era capaz de apresentar. Prost o seguia, mas com claros sinais de problemas mecânicos, não resistiu a Berger. O francês abandonou, deixando Senna seguir como favorito a mais um êxito. Mas eis que o destino sorri para a Ferrari!

Liderando com folga, Senna caminhava para uma importante vitória quando, na última volta, encontra um retardatário. O brasileiro tentou resolver a ultrapassagem sobre a Williams sem muita negociação e... pimba! Um enrosco bobo e evitável retira Ayrton da prova e abre caminho para um redentora dobradinha da Ferrari. Um dia de sonho no meio do pesadelo de (àquela altura) não vencer um mundial desde 1983, ano em que a Ferrari fora vencedora do campeonato de construtores pela última vez até então.



“Ora ora” – me indaga o leitor – “Berger apenas herdou as posições das McLaren, por que tanto destaque?” Simplesmente porque vencer em Monza é especial apenas por isso. Pilotando uma Ferrari então...

O Falso Espetáculo Australiano

O episódio é, no mínimo, curioso, mas muito divertido. Reza a lenda que a Ferrari desistira de qualquer esperança de bom desempenho naquela corrida. O motor consumia muito e a scuderia não tinha condições de pensar nem pódio. Então os italianos decidiram fazer das ruas de Adelaide um palco para um show realizado com playback.

A idéia folclórica era apenas correr leve, correr pela simples vontade de dar show, e não completar a corrida. Já que não havia chance de um resultado significativo, os carros de equipe italiana foram à pista apenas para impressionar, e nada mais. Era uma forma divertida de terminar mais um ano ruim para o time italiano.

E lá foi Berger. Sem grandes dificuldades, se aproximou e ultrapassou Senna. Seguiu com desconcertante facilidade à caça de Prost e também o deixou para trás. Uma façanha! Pouco depois, sabendo que não tinha a mínima chance de levar o carro adiante, já que combustível escasseava no tanque, Berger colidiu propositadamente em René Arnoux. Era uma forma “digna” de terminar a corrida sem levantar suspeitas a respeito da total falta de competitividade dos carros vermelhos.



Um falso show, mas com diversão garantida.

Pela Última Vez

Hockenheim 1997, Grande Prêmio da Alemanha. Seria a última vitória de Gerhard Berger na Fórmula-1 e a última da Benetton.

O austríaco conhecia bem as enormes retas da pista germânica. Vencera lá em 1994, inclusive. Berger estava disposto a dar um show em sua derradeira corrida em seu gp quase doméstico. Dono da pole position, o piloto da Benetton dominou o grid na largada. Mas pairavam dúvidas sobre a real performance da equipe na corrida. Conseguiria Berger resistir aos carros de ponta?

A verdade é que o austríaco sequer chegou a ser incomodado pelos carros top. Não houve Schumacher nem Hakkinen que fosse capaz de frear Gerhard Berger naquela tarde.

Aproveitando-se da arriscada, porém eficiente estratégia de duas paradas, Berger voou nas retas da antiga pista alemã. Não encontrou adversários em seu nível e quando alguém cismava de entrar em seu caminho, Berger fazia questão de despachar o quanto antes. Foi assim com Hakkinen, logo que Gerhard voltou dos boxes. Foi assim posteriormente com Fisichella, outro que demonstrou grande talento naquela tarde, mesmo que não tenha completado a corrida.



Pilotagem de perícia, de garra e de talento. Digna de ser a última vitória de Gerhard Berger.

O Pior

Circo em Ímola

Tarde chuvosa em Ímola, pista molhada, e um mico de dois importantes pilotos do grid em 1991.

Ainda durante a volta de aquecimento, Prost com a Ferrari e Berger com a McLaren tornam-se figuras principais de episódios vexatórios. Os dois perdem o controle de seus carros na pista molhada e rodam. Até seria aceitável durante a pressão de uma corrida, mas o fato torna-se circense por ser na volta de apresentação.

Gerhard ainda consegue voltar para a pista, Mas Prost...




Estourando em Estoril

Grande Prêmio de Portugal de 1993, Berger outra vez na Ferrari.

Na saída do pit stop do austríaco a Ferrari inexplicavelmente atravessa a pista, cruza perigosamente entre outros carros na reta principal e colide com o muro, arrebentando com o carro. Fim de corrida para Berger e metáfora da situação da outrora imponente marca do cavalinho: caos total e absoluto, com direito a nenhuma vitória naquele ano.




Exagero no Principado

Na véspera daquela que seria uma das corridas mais estranhas da história, com apenas 4 carros cruzando a linha de chegada, um Berger exagerado rodou em plena classificação.

Faltavam poucos segundos para o fim daquele treino em Monte Carlo. Berger e Schumacher próximos, o austríaco sente-se mais rápido do que o alemão e tenta ultrapassá-lo para não perder tempo em sua última volta rápida e... vê o mundo ao contrário, na saída do túnel. Por sorte o Benetton não atinge guard-rail e muros, fazendo com que o incidente termine sem grandes conseqüências.




Votação aberta logo à direita, no alto da coluna de informações do blog. Convite ao voto e à revelação (facultativa, claro) dos mesmos mais do que feitos.

3 comentários:

Paulo Maeda™ disse...

Grande Post, Fábio!
A história da Ferrari leve na Austrália eu conhecia, mas as outras foi bom para eu relembrar. Berger foi msm um piloto "amigável" em seus tempos, hj não vejo nenhum piloto que seja parecido com ele nesse aspecto. E realmente foi um grande piloto.

Marcos Antônio Filho disse...

Berger venceu em hockenheim pela última vez no memos fim de semana que seu pai faleceu, e pra ele dedicou a vitória.

O Momento de Estoril foi inesquecível! Mas a culpa não foi dele, aconteceu uma pane na suspensão eletrônica e ele foi-se pro muro!. Qeu que é acertado pelo o Derek Warrick

Fábio Andrade disse...

Maeda: de fato, foi um cara extremamente ético enquanto piloto. Hoje não há ninguém assim no paddock, infelizmente. Essas figuras amigáveis foram extintas;

Marcão: desconfiava de problema técnico mas não tive certeza. Obrigado pelo toque!