sábado, 1 de novembro de 2008

Brasil - Especial: Água Fervente

O Autódromo José Carlos Pace não ficou conhecido pelo nome de Interlagos por acaso. O circuito antigo, esmigalhado pela imposição de um novo padrão de pistas desejado pela FIA, abraçava o lago existente no terreno da pista. Hoje em dia os carros não mais contornam as águas desse lago, que dá nome a uma das curvas do circuito. A água do lago, no entanto, deveria voltar a se envolver com a corrida de F-1 em São Paulo com uma finalidade clara: refrescar a torcida brasileira na pista paulistana.

Todos os anos Interlagos recebe um bom público para a corrida da categoria máxima do automobilismo mundial. Desde a ida de Rubens Barrichello para a Ferrari, em 2000, há um brasileiro com chances razoáveis de conseguir bons resultados na prova. Rubinho jamais conseguiu a esperada vitória, mas esteve bem perto em 2003, quando foi pole e abandonou quando era líder, graças a uma incrível pane seca (falta de gasolina no motor, para os não iniciados). Em 2004, Barrichello também deixou o torcedor esperançoso depois de marcar novamente a pole em Interlagos. No domingo, porém, a torcida viu a vitória escorrer novamente pelas mãos de Rubinho.

De 2006 pra cá, Massa substituiu Barrichello na Ferrari e em seu primeiro ano na escuderia de Maranello fez a pole e venceu a corrida em casa. Interlagos voltou a ferver naquela ocasião, uma das corridas mais interessantes dessa década. Massa foi pole novamente em 2007 e repetiu a dose agora em 2008. Em todas essas ocasiões (as poles de Barrichello e Massa e a vitória de Felipe em 2006) um traço da torcida brasileira ficou bem claro: a participação, o incentivo e a interação entre o público e o que acontece na pista é algo impossível de ser ignorado.

É assim desde sempre. A vitória de Senna no Brasil em 1993 rendeu imagens que são emblemáticas no quesito “torcida apaixonada.” A cena de Interlagos invadida, de Senna nos braços do povo, deixam claro o quanto o brasileiro se liga ao esporte, mesmo que isso seja fruto, em grande parte, das circunstâncias da época. Nos anos 80 e no início dos 90 a seleção brasileira de futebol, signo maior ao qual a massa, historicamente, sempre prestou reverência, estava amargando um severo jejum de títulos. A economia ia mal, a vida política do país estava em convulsão e Senna era o sujeito que vingava a decadência geral do brasileiro médio. Era o cara que “dava certo”, o Messias-Salvador em quem estavam depositadas todas as esperanças de reverter as frustrações de uma nação inteira.



Se o frisson da torcida é uma manifestação correta ou equivocada eu não sei. Quem sou eu, aliás, para julgar um mito da magnitude de Ayrton Senna. Sim, foi uma imagem construída com a ajuda de uma gigante da mídia, não há dúvidas quanto a isso. Mas, parafraseando o próprio Ayrton, em uma de suas melhores frases, “não há marketing que sustente um blefe.” Senna foi sim um piloto diferenciado. Vitórias épicas, como as duas de Interlagos (Ayrton também venceu a corrida de 1991, cruzando a linha de chegada com apenas a 6ª marcha de seu McLaren funcionando), fazem parte de um seleto grupo de exibições inesquecíveis da F-1. E o brasileiro, marrento que é, sente necessidade de viver seu apogeu intensamente. Até mesmo por possuir raros momentos de liderança inequívoca em atividades que envolvem competições internacionais.

Hoje a F-1 (e o esporte como um todo no Brasil) vive um outro momento. A torcida reencontrou certo prumo em sua vida “real.” O país vive em certa estabilidade política, o nível de vida subiu nos últimos anos e a imagem de Salvador da Pátria hoje está relacionada ao próprio mandatário-mor da nação, o presidente Lula. O brasileiro parece ter se desligado um pouco do esporte. Até a seleção de futebol, aquele vício tupiniquim que mesmo enfraquecido jamais pode ser ignorado, está em baixa no coração da galera. Fórmula-1, então, não é assunto das rodas de boteco há muito tempo.

Mas paixão é coisa que esfria, mas não morre. E hoje, 15 anos depois de última vitória de Senna no Brasil, a chama está acesa de novo como nunca esteve desde a morte do tricampeão. As imagens da tv foram conclusivas a esse respeito. Cada vez que Massa aparecia nos telões espalhados por Interlagos a platéia fervia. Cada vez que Hamilton era focalizado, uma sucessão se vaias se instalava. Falta de respeito? Juro que não sei. Até gosto dessa pimenta que a torcida adiciona ao clima do GP Brasil. Molecagem me parece um termo mais apropriado. Outro traço da personalidade desse povo que floresceu entre diversas “molecagens” entre índios, negros e brancos.

O Brasil é uma molecagem, afinal.

E molecagem maior poderia ser a da direção de prova, se resolvesse tentar amenizar o fogo do torcedor em Interlagos com a água do velho lago. De molecagem em molecagem, o GP Brasil adiciona um ar menos formal, mais caloroso, à categoria que faz de tudo para se tornar cada dia mais asséptica e distante de toda e qualquer manifestação autêntica. É um sopro de personalidade numa F-1 que se esforça para ser cada vez mais impessoal.

3 comentários:

Marcos Antônio Filho disse...

excelente texto. O Brasil tem mesmo esse diferencial, da arquibancada agir como se fosse um jogo de futebol.Não sei se dá pra ouvir,mas s eo piloto olhar pro lado e ver toda aquela gente em polvorosa,deve ser realmente uma motivação extra.

Felipão disse...

CLAP CLAP CLAP CLAP

É o típico texto que gostaria de ter escrito

Fantástico, Fabio

Fábio Andrade disse...

Marcão: Brasil é mesmo especial. A torcida é muitíssimo participativa;

Felipão: pára com isso, brother! Já que se eu resolver acreditar no que vocês dizem fico muito antipático, hehe!

Obrigado pela protocolar visita!