sábado, 15 de novembro de 2008

Ecclestone: Eterno, Profano e Divino

Testes de Ferrari e Williams? Que nada! A notícia mais importante da semana vem do dono do circo, Bernie Ecclestone, que, aos 78 anos, afastou qualquer possibilidade de aposentadoria.

“Nunca, nunca, nunca” – respondeu Bernie, ao ser indagado sobre um possível descanso. "O primeiro dia em que não estiver indo trabalhar, pode ter certeza que estarei morto. E isso não acontecerá nem tão cedo” – reforçou o dirigente que, talvez acostumado com a forma tirânica com a qual dita os rumos da F-1, acredita que tem o poder sobre a vida e a morte. O chefão imperial deve se achar eterno.

Bernie Ecclestone é uma velha raposa do circo da F-1. É mais conhecido pelos anos de cartolagem, tanto como “chefão” da categoria, como dono da extinta equipe Brabham. Além desses cargos, Ecclestone já se aventurou como empresário de pilotos britânicos e até como piloto, ofício que não lhe rendeu muitos sucessos.

Nos anos 70, Bernie comprou a Brabham e passou a desfilar influência nos bastidores do circo da F-1. Junto com outros chefes de equipe fundou a FOCA (uma FOTA de 30 anos atrás) e se tornou a voz mais ativa dentro da entidade. Mas foi com a aquisição dos direitos televisivos da F-1 que Bernie deu o pulo do gato. O inglês passou a ter controle cada vez maior na área financeira e é hoje o maior acionista da categoria, uma espécie de deus que decide os rumos da F-1 de forma quase totalitária.

Nos últimos anos Ecclestone se notabilizou por levar a F-1 a lugares cada vez mais inusitados. Malásia, China, Bahrein, Cingapura e, no ano que vem, Abu Dhabi são lugares para onde o circo andou migrando nos últimos tempos. Países com tradição automobilística nula, mas com muitos dólares a oferecer para ter o direito de sediar um gp. Enquanto isso a categoria se desfaz dos gp’s Canadá e França (países que nos deram pilotos como Gilles Villeneuve e Alain Prost, respectivamente), e em breve também deixará um de seus palcos mais sagrados, a pista de Silverstone. As despedidas quase sempre são motivadas por fatores financeiros: ao menor sinal de prejuízo, a F-1 abandona o barco. No lugar de traçados históricos, Bernie enfia construções suntuosas mas com valor agregado nulo, como a do autódromo de Xangai, profanando a memória da F-1.

É graças ao pragmatismo financeiro que não respeita e não reverencia o passado, que a F-1 segue seu caminho rumo à Ásia. Circuitos moderníssimos, arquitetura requintada e cenário livre de qualquer toque pessoal de pistas como uma Montreal, ou uma Spa-Francorchamps. Essas últimas não oferecem a mesma (e relativa) finura da arquitetura tilkenizada, mas possuem histórias para contar. Mais do que isso, são pistas de verdade, nascidas em tempos em que correr riscos fazia parte da essência de um esporte que consiste em andar o mais rápido e da melhor forma possível, fechando os olhos aos iminentes acidentes de forma quase que negligente, mas irresistivelmente moleca. Nada contra a exemplar segurança que rege a F-1 moderna, mas há décadas atrás a categoria vivia tempos em que as atenções estavam menos voltadas ao politicamente correto e mais ao puro prazer de se guiar. Tempos românticos que se afastam cada vez mais, em grande parte, pela fúria profanadora do homem que parece se julgar eterno.

Para desespero geral, Ecclestone deu pistas de que sua saga rumo a países excêntricos tende a continuar: "Se vocês soubessem o tamanho da lista de pedidos [de países desejando receber a F-1] que eu tenho em meu escritório, dificilmente você acreditaria” – disse o inglês em entrevista. Porém, ainda há tempo para Bernie se redimir.

Já que o chefão se julga tão poderoso, bem que ele poderia nos fazer um senhor favor, quando decidir desencarnar. Transmitir lá do além, uma corrida com mestres que já não estão aqui. Uma prova especial, exibida graças a grande influência que Ecclestone deve possuir lá em cima, uma vez que o britânico parece saber quando será a hora de sua morte. Uma corrida com Fangio, Clark, Peterson, Villeneuve e muitos outros inesquecíveis heróis, de tempos clássicos e distantes. Uma atitude como essa, e Bernie Ecclestone deixaria de ser lembrado como profano, para se tornar divino.

7 comentários:

sérgio disse...

Não há jeito de não concordar contigo, Fábio.

Será que o Bernie fica mais quantos anos no comando?

Ron Groo disse...

alguem vai ter de descançar este senhor...

Felipão disse...

fico preocupado, pq os mesmos responsáveis pelo sucesso de uma organização, são responsáveis pela queda da mesma...

Diego Maulana disse...

O Bernie Ecclestone vive nos dois extremos da F1. As vezes faz coisas que são muito boas e as vezes faz m....!

É a vida. Mas ele sabe como fazer.

Felipe Siqueira disse...

Tá adicionado lá tb!!

Paulo Maeda™ disse...

será que não sobrou nenhuma peça do Porsche 550 do James Dean que o Felipão falou no último post do Blogspot? A gente podia dar "de presente" pro Ecclestone...rss

Mas falando sério, realmente a F1 está abandonando a emoção e a tradição de circuitos míticos. Alguém tem informação de Ímola? Nunca mais ouvi falar dela...

Fábio Andrade disse...

Sérgio: valeu, cara. Pelo jeito a treta dele com Deus deve ser forte. Mas cá entre nós, tomara que não sejam muitos mais os anos do velho à frente da FOM;

Groo: a sugestão que você deu no seu blog é fantástica. Eu apoio;

Felipão: num é? O Ecclestone pode ser apontado como um dos grandes responsáveis por levar a F-1 a todos os continentes e ao mesmo tempo está tornando a categoria num cemitério de si mesma. É algo a se pensar;

Diego: posso dizer que ele vai aos extremos com uma facilidade incomum;

Paulo: que tal equipar o carro particular do Ecclestone com uma daquelas peças? hehe

Olha, a última notícia que tive de Ímola foi a de que a pista recebeu certificação para voltar a receber testes de F-1. Sobre voltar a ter corridas, nunca mais ouvi falar nada.

Senhores, obrigado pelos comentários, voltem quando puderem e quando quiserem. A casa é de vocês.