terça-feira, 7 de abril de 2009

Mais do Mesmo: um picolé, e o início de crise na Ferrari

Felipe Maciel já havia chamado atenção ontem: a cena mais insólita do GP Malásia não foi a dos carros rodando em linha reta ou a da câmera onboard de Rubens Barrichello denunciando a ausência de visibilidade. Foi a de Kimi Mathias Raikkonen de bermuda, chupando um picolé enquanto o restante dos pilotos ainda aguardava o hipotético reinício da prova. Com sua habitual frieza e seu senso de individualidade, Raikkonen definiu, num lance só, sua insatisfação com os erros da equipe Ferrari e sua indisposição de arriscar a pele numa pista indirigível. O ineditismo da cena fez com que o finlandês roubasse sua própria cena.

Acusem o campeão de 2007 do que quiserem: instável, talvez desinteressado, um tanto quanto distante em termos de torcida. Só não digam que o cara não possui personalidade. Raikkonen é, no poço de idéias por vezes enganosas e dissimuladas que é a F-1, um cara irremediavelmente autêntico. As vezes acaba ferindo o ego de quem prefere fazer cena. Esse tipo de atitude não existe com o nórdico. Quando entrevistado, Kimi costuma dar nomes aos bois e indicar falhas com uma tranqüilidade e honestidade incomuns. Raikkonen, aliás, é um dos poucos com personalidade suficiente para deixar claro que não gosta de microfones e não suporta a falsa badalação que rodeia a categoria máxima. O ferrarista carrega consigo um quê de Nelson Piquet, sem a irreverência do tricampeão, mas com um senso individual bem delineado que o difere da maioria dos pilotos na hora de agir e de dar declarações perante o público.

No último domingo, entretanto, Raikkonen nem precisou abrir a boca. Saiu do carro, tirou o macacão, e deliciou-se com um picolé. A sobremesa bem que poderia ser uma banana, numa mensagem subliminar enviada ao QG da Ferrari, que destruiu sua corrida. Mas um picolé também carrega alguns significados: o homem de gelo continua mais gelado do que nunca.

A cena remeteu a uma F-1 romântica, quando os pilotos ainda tinham alguma liberdade para agir por conta própria, para se indispor a correr em lugares que julgavam sem segurança, livres da tendência de serem tratados como gado ou massa de manobra. Talvez a imagem de Raikkonen, campeão, integrante da rubra e onipotente Ferrari, ainda não tenha sido avaliada em toda a sua grandeza: foi a maior demonstração de personalidade individual de um piloto em décadas! O cara negou-se a correr, mesmo sendo representante da equipe mais tradicional e cheia de pompa e blábláblá do paddock. Enquanto todo mundo permanecia no grid esperando pelo hipotético reinício da corrida, brigando por migalhas de pontos, Kimi enviava um Magnun de chocolate a todos: “eu não me arrisco por pouca coisa.” Simples assim.

Raikkonen não é uma liderança influente na GPDA, a Associação dos Pilotos de Grande Prêmio. O finlandês sequer expõe interesse em ser um dos guardiões da segurança nas pistas. Mas seu picolé e seu bermudão fizeram mais pelos pilotos do que o HANS (o tal Head and Neck Support, surgido no início da década para evitar o chacoalhar excessivo da cabeça dos pilotos em caso de colisões) ou a reforma de Hockenheim. Kimi Raikkonen, com um lúdico picolé, lembrou aos volantes da F-1 que ainda é possível se indispor com a categoria. Basta estar “nem aí” e manter-se gelado como um picolé, mesmo sob o calor malaio.
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A indiferença com a qual Raikkonen encarou o GP Malásia foi, sob uma das óticas, um protesto mudo contra as pixotadas da Ferrari. Equipar o carro do finlandês com pneus biscoito com o asfalto seco foi das maiores demonstrações de amadorismo dos últimos tempos. E logo na Ferrari, equipe que se notabilizou por ser uma papadora de vitórias profissional nos últimos anos. O pior é o boato que corre na imprensa alemã: quem teria sugerido a instalação dos pneus de chuva extrema no carro de Kimi? O heptacampeão e símbolo maior da reconstrução vermelha, Michael Schumacher! Se o rumor foi verdadeiro, fica no ar a pergunta: por que o alemão se intromete em estratégias de corrida? Seu cargo de “consultor” lhe fornece autoridade para tal função?

Eis a chave do problema de Maranello. O desmantelamento do dream team que botava ordem no galinheiro italiano (Rory Byrne, Ross Brawn, Jean Todt e CIA) nos últimos anos custou caro. A equipe se viu, de uma hora para outra, sem liderança. E num cenário desses sobram caciques para comandar poucos índios. O time começa a bater cabeça sem a presença de um macho alfa para subjugar os outros. Stefano Domenicali já deixou clara a inaptidão para ser o capo da máfia rubra ferrarista. E sem um líder personalista, os italianos já mostraram que são capazes de se anular, como os anos 80 e 90, com o gradual afastamento de Enzo Ferrari, exemplificaram bem.

O cavalo rampante, antes impecavelmente adestrado, começa a perder o rumo...

10 comentários:

Bruno Aleixo disse...

A Ferrari criticou Kimi Raikkonen por sua postura "nem aí" no ano passado. Agora é a hora de Kimi criticar a equipe, por sua postura "mega incompetência". E agora, estão colocando a culpa em Schumacher. Fácil né?

Marcos Antônio Filho disse...

A Ferrari é uma equipe italiana. Imagine um almoço de domingo de uma família italiana. Assim é a reunião da ferrari. Quando o Todt e Brawn estavam punham ordem na cozinha, mas agora...

Loucos por F-1 disse...

O Raikkonen é muito engraçado, nem aí pra nada. Não sou contra esta postura dele, fez muito bem em não querer correr numa pista daquelas, antes mesmo da decisão oficial. Será que a ordem veio do alemão...rsrs.

Abraço!

Leandro Montianele

Loucos por F-1 disse...

Fábio, me desculpe ter sumido, mas ando meio atolado com o novo trabalho.

Leandro Montianele

Ron Groo disse...

Eu costumo chamar ele de bunda mole, mas tenho de admitir que desta vez ele mandou bem. É o ultimo representante dos pilotos com pensamento livre.

Felipe Maciel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Felipe Maciel disse...

Domenicali não me parece mesmo a pessoa mais indicada para comandar a equipe. Não importa quem fez a estratégia, ele simplesmente deveria ter vetado. A Ferrari conseguiu perder o título de pilotos no ano passado e ganhou injustamete o de construores, graças aos seus pilotos. Salva pelo gongo da incoerência!
Mas neste ano a situação é ainda pior, carro não é mais o mais forte. Domenicali vai dar a volta por cima? Duvido muito...

Dan G. disse...

Estão dando um significado além do real para essa atitude despojada de Raikkonen.

Ele não saiu do carro pq não queria correr naquelas condições, e sim pq, efetivamente, o Kers do carro número 4 deu problema e impediria, de qualquer forma, que o finalndês voltasse à pista.

Isso não tira o simbolismo do ato dele (que, creio, ele nem quis esclarecer) mas fato é que o carro NÃO ANDARIA, mesmo que ele estivesse tomando chuva no grid como todos os outros.

Raikkonen talvez seja sim o último piloto moicano no meio de tantos cara-pálidas, mas ele realmente não está se fazendo respeitar com suas performances abaixo da expectativa desde meados do ano passado.

A batata nórdica do Homem-de-Gelo está assando... ou seria congelando?

Felipão disse...

hehehe

tem até uma versão trauzida rolando no youtube...

Raikkonen é hilário... sempre motivo de boas risadas...

Fábio Andrade disse...

Boa Dan, só bem depois fui ficar sabendo que o Raikkonen abandonou pq tinha um defeito no KERS.

Mas é como você mesmo reiterou: não tira o divertido significado do ato dele. Só o Kimi ou talvez o Vettel ainda representem alguma personalidade nessa Fórumla-Igual.