quarta-feira, 20 de maio de 2009

Rompimento Reticente

Ela, italiana, altiva, ainda em forma apesar de seus mais de 60 anos. Dama de Vermelho foi seu apelido de juventude consagrado até os dias atuais pelo fato de ela adorar trajes na cor da paixão. Vestia-se também de amarelo e outras cores, mas gostava de se olhar no espelho ao rubro. Achava que suas curvas sempre ficavam mais ressaltadas sob belos modelos rossos. Dona de um porte aristocrático, Ela despertava certa inveja em outras senhoras. Elegante, sabia se portar e se fazer notar sem apelar para outra coisa que não sua própria presença.

Ele, também sessentão, um senhor não tão interessante, não tão protagonista de sua própria vida, meio gagá, é verdade, mas velha raposa da vida.

Ela queria, intimamente, o divórcio, insatisfeita com um casamento de anos que não lhe fazia tão feliz nem lhe trazia muitos benefícios. Na verdade o casamento até era bom, já havia passado por alguns tremores, mas sempre resistiu. O problema é que Ela queria mais. Achava-se boa e conservada demais para ficar retida a um compromisso que a tornava prisioneira. Tinha desejos, vontades que eram irrealisáveis com o marido. Mas tinha medo de se arriscar em terreno novo. Também causava incômodo o fato de que, naquela idade, anunciar-se como divorciada não causaria um impacto social propriamente positivo. Achava mais conveniente manter um casamento de mentira.

Ele, velho gatuno, já fora descoberto pulando a cerca e tinha um fogo sexual ainda ativo, mesmo para o respeitável senhor. Era capaz até mesmo de ter fantasias sadomasô que nunca concretizaria com a madame oficial. Para isso Ele procurava as distintas moças da rua. Ela, no entanto, preferiu manter o casamento, mesmo que apenas de fachada, para preservar-se perante os amigos.

Só que a paciência Dela não era perpétua. E Ele, já na 3ª idade, estava farto de viver sob os julgos conservadores da sociedade. Desejava livrar-se das convenções e mandar em casa sozinho, sem interferências, fazendo as coisas do seu jeito. Algo que Ela não permitia, pois como boa mulher, queria palpitar em todas as instâncias dos assuntos da vida Dele.

Ele começou a sabotá-la. Ameaçou limitar os gastos da velha companheira. Tomar medidas sem consultá-la tornou-se praxe. A irritação Dela crescia a ponto de alguns amigos ficarem sabendo, pela boca Dela, dos problemas de casa. Algo raro, visto que Ela sempre fora muito discreta quanto aos problemas de relacionamento doméstico e procurava resolvê-los por meio da diplomacia. O ápice dos problemas foi quando Ele decidiu que abrigaria algumas novatas em casa, nos fundos, no quarto das empregadas. Fachada, lógico, para as novas amantes da rua poderem estar acessíveis. Pelo que Ela sabia, Ele sempre se envolvia com moças mais novas e, quase sempre, se aproveitava da fortuna de anos de trabalho para ganhar vantagem. Sua principal arma de sedução, evidentemente, não era a virilidade da juventude e sim de sua conta bancária.

Para Ela, aquilo era o cúmulo da humilhação. “Como Ele pode me trocar por várias menininhas deslumbradas?” – Ela pensava, deixando transparecer que apesar das birras, havia uma pontinha de paixão no meio daquele relacionamento gasto pelo tempo. Mas Ela não podia admitir. O que as pessoas pensariam se Ela se calasse diante de algo tão vexatório? Ela o procurou, num belo dia, e disse que se Ele realmente continuasse com seu comportamento imprevisível e desafiador, Ela sairia de casa. Fez ameaças, falou alto, em tom firme, certa de que Ele também se iria se preocupar com o prejuízo social que um divórcio traria. Ela falou durante longos minutos, sem ser interrompida por Ele, que ouvia tudo com ares de desdém. Quando terminou, Ela chegou a considerar, por uma fração de segundos, que Ele pediria desculpas. Em outra fração de mínima de tempo, Ela imaginou que Ele certamente continuaria a ter relacionamentos extra-casamento, mas isso não a incomodava, desde que fosse bem acobertado. O que se seguiu, entretanto, não foi nenhuma coisa, nem outra.

Ele a olhou fixamente e disse laconicamente que estava disposto a comprar a briga. Se Ela tivesse de sair, que saísse. “A porta da rua é a serventia da casa” – disparou Ele, fazendo com as palavras entrassem pelos ouvidos Dela como se fossem flechas em chamas. Ela estremeceu, e ficou por segundos sem ação, como se realmente tivesse sido atingida por flechas incandescentes. Seu rosto mudou de feições, ameaçou um quase choro. Estava preparada para tudo, menos para descobrir que as convenções socais já não eram a maior preocupação de seu ainda marido.

O pouco caso Dele a deixou irada. Só que Ela ainda não era capaz de viver com a vexação social de ser uma senhora divorciada naquela idade. Por hora ela engoliu alguns sapos, não teve coragem de ir embora e mantém-se até o presente momento estudando uma forma de golpear as pretensões Dele. Mas, claro, de forma elegante, como sempre foi próprio de seu estilo.

3 comentários:

Anônimo disse...

Ótimo texto!

Ron Groo disse...

Muito bom... lembra até este aqui ó, modestia aparte.

http://blogdogroo.blogspot.com/2009/02/discutindo-relacao-e-o-orcamento.html

dá uma olhadinha.

Paulo Maeda™ disse...

ótimo texto msm Fábio. Parabéns. Como eu queria ser um blogueiro com estas idéias de textos viu... (Mode inveja_ON) rs. Abs