terça-feira, 31 de março de 2009

Mais do Mesmo: Ao Vestibular, Calouro!

Pelo desempenho apresentado nos testes e na corrida de domingo, ficou claro que a McLaren terá muito trabalho em 2009. A equipe não tem um bom equipamento em mãos, ficou com medíocres 14º e 15º lugares na classificação de sábado e ainda sofreu com a punição aplicada a Lewis Hamilton, que trocou o câmbio e acabou iniciando o GP Austrália na 18ª posição.

A perspectiva para esse início de temporada não é muito diferente. O próprio Hamilton admitiu ontem que o GP Malásia, disputado no próximo fim de semana, deve sublinhar ainda mais as deficiências, sobretudo na parte aerodinâmica, do MP4/24. A equipe deve passar as próximas etapas largando do meio ou do fundo do grid e forçando Heikki Kovalainen e Hamilton a avançarem entre o pelotão.

A condição acima ambienta um desafio ao qual Lewis nunca esteve acostumado na F-1. O atual campeão já chegou à categoria num carro extremamente competitivo, brigando por pódios e, posteriormente, por vitórias e pelo campeonato. Hamilton era uma espécie de calouro que ingressou na universidade sem passar pelo vestibular. Apesar da competência, Hamilton deixou no ar a sensação de que ainda precisa provar alguma coisa, e mesmo seu título em 2008 não lhe posicionou como piloto completo no imaginário geral da F-1. Para muitos, falta a Hamilton o aprendizado de penar com um carro ruim, partir do fim do grid e impressionar em condições adversas. Essa etapa de aprendizagem a qual todos os seus colegas de pista foram submetidos foi queimada por Hamilton, que já estreou no consagrado cockpit da McLaren brigando por vitórias.

Em Melbourne, partindo da 18º colocação, o inglês cruzou a meta de chegada no 4º posto, que acabou virando 3º. Em que pesem os inúmeros incidentes que tiraram vários carros da corrida, foi uma das poucas chances que o universo da F-1 teve de ver Hamilton vindo de trás e fazendo uma corrida limpa.

Será 2009 a chance de Hamilton justificar em definitivo a histeria da torcida inglesa e provar que também é bom vindo do fundo do grid?

É ano de vestibular, de decisão, e de extrema dedicação para o calouro campeão.

segunda-feira, 30 de março de 2009

Austrália Memories: 2001

Dúvida anotada nos Cadernos

Melbourne, início de outono no hemisfério sul, abertura do mundial de F-1 de 2001.

A temporada começava ainda sob o impacto do ano anterior. Meses antes, Michael Schumacher conquistara seu primeiro mundial de pilotos pela Ferrari, primeiro título da equipe desde Jody Scheckter em 1979, devolvendo assim a auto-estima aos tiffosi.

A McLaren, grande rival e única capaz de figurar no imaginário como equipe capaz de barrar o bem-nascido F-2001, prometia fazer oposição forte ao conjunto italiano, promessa não cumprida ao longo do ano.

Schumacher fez a pole e venceu, seguido por David Coulthard e Rubens Barrichello. Mika Hakkinen, grande adversário do alemão nas temporadas anteriores, não completou a corrida.

Mas o fato que mais chamou atenção durante a corrida não foi a tranqüila vitória do alemão da Ferrari, nem o abandono de Hakkinen, nem a corrida de recuperação de Rubinho, que largou mal e chegou a ocupar a 5ª posição. Foi o assustador acidente entre Ralf Schumacher e Jacques Villeneuve ainda no início da prova.

Visivelmente mais veloz, Villeneuve se aproximou rapidamente do alemão da Williams. Numa curta reta da pista de Melbourne, o canadense embutiu sua BAR na traseira de Ralf. A sobra de velocidade de Jacques era tamanha que o canadense se aproximou demais do carro do Schumacher caçula. Os dois colidiram, o carro de Villeneuve levantou vôo e os destroços se espalharam por toda a parte.



A terrível conseqüência da incrível batida foi a morte de um comissário de pista atingido pelos detritos voadores provenientes da batida, além de ferimentos em cerca de uma dezena de espectadores que se encontravam nas imediações do local do acidente. Foi a última vez que alguém morreu numa pista durante uma corrida de F-1.

Ou seja, os últimos anos foram de tanta evolução na segurança da F-1 que os dois pilotos envolvidos num acidente pavoroso como esse saem ilesos, enquanto um indivíduo localizado fora do carro perde a vida. Quer dizer que é mais seguro estar dentro de um carro durante a corrida do que estar nas proximidades assistindo a ela?

Eu rodo, rodo, e acabo voltando aos questionamentos levantados pelo Daniel Médici, do blog Cadernos do Automobilismo, que são, evidentemente, muito ricos em matéria de complexidade do conteúdo, além de inquietantes. Pergunta o Médici: “se a higiene extrema já chegou a Fórmula 1, por que continuaríamos assistindo suas corridas? Para engordar os bolsos de outros homens de terno?”

Eu não sei. Alguém se arrisca?

Para tentar compreender a discussão em toda sua amplitude é recomandável a leitura de outros dois artigos do Médici, encontrados aqui e aqui. Boa sorte!

domingo, 29 de março de 2009

Austrália - Results & Coments [4]

Enfim, a corrida, a Brawn e tudo mais

A corrida da madrugada ainda vai gerar muitos ecos, quem duvida?

Precisei de algumas horas de recuperação para começar a juntar os cacos, as imagens, os flashes, todas as impressões da corrida da madrugada. O que fica é a sensação de que fui jogado do alto de um prédio mas ainda não terminei de concluir que estou em queda livre (não há aqui nenhuma menção ao caso Isabela Nardoni, que completa um ano hoje. Só percebi a coincidência depois de o texto já estar pronto).

A Brawn venceu a primeira corrida de sua história com dobradinha. É lógico que o feito está na história. Ainda mais por não ser uma daquelas vitórias que resultam de circunstâncias absurdas e sim por ser um êxito de um time que já é apontado como favorito a mais vitórias durante o ano.

Tudo isso na primeira corrida de uma equipe que é descendente de um caos motorizado, a Honda dos anos 2000.

É uma vitória com mais valor do que a dobradinha da BMW em Montreal no ano passado, ocasião em que Kubica e Heidfeld foram beneficiados pelos erros dos pilotos e das equipes grandes em si.

Então é parabéns a Ross Brawn a Jenson Button e, em menor grau, a Rubens Barrichello. Sim, porque o brasileiro cometeu uma série de erros evitáveis, especialmente na primeira parte da corrida. Se chegou em 2º, deve o favor a Robert Kubica e a Sebastian Vettel, de quem falaremos mais tarde.

Por enquanto, o assunto é a Brawn GP.

Button correu sozinho. Não viu Vettel no retrovisor de seu BGP001 porque nem o alemão, nem ninguém conseguiu desempenho paralelo ao seu. Largou e escapou, sabendo que o único com possibilidades de incomodá-lo era Rubens Barrichello. Mas Rubens Barrichello que é bom, nem perto de Button esteve.

O engate errado de marchas na hora da largada fez com que Rubinho ficasse estático por frações de segundo essenciais na hora da partida. Relegado ao meio do grid, Barrichello ainda se envolveu num toque com a McLaren de Heikki Kovalainen. Por uma incrível sorte, o BGP001 de Rubens apenas sofreu uma avaria relativamente amena, enquanto o MP4/24 de Kova abandonou com a suspensão quebrada. Posicionado na 7ª colocação, Barrichello encerrava momentaneamente o sonho de dobradinha da Brawn.

Sebastian Vettel e Felipe Massa agradeciam a Rubinho. Ocupando, respectivamente, o 2º e o 3º lugares, os dois faziam uma corrida que “dava para o gasto”, afinal, nenhum deles tinha chance de se aproximar de Button, que a essa altura já estava a 4 segundos de distância.

Para Massa e para a Ferrari, o GP Austrália se revelaria o pior dos pesadelos. Primeiro, a equipe rubra escolheu mau a estratégia, avaliando, erradamente, que os pneus macios eram os mais apropriados para a 1ª parte da corrida. Em 10 voltas tanto Massa como Kimi Raikkonen estavam com os calçados deteriorados e tiveram que entrar no boxes. Maranello passaria a trabalhar com a arriscada estratégia de 3 pit stops, a despeito das prováveis entradas do Safety Car.

Eis que pouco depois, Kazuki Nakajima acerta o muro de Melbourne rodando sozinho. Inevitável entrada do carro-madrinha no traçado australiano.

Na relargada, Nelsinho Piquet saiu da pista, atolando na caixa de brita. Pôs a culpa nos freios frios por causa do longo período de intervenção do Safety Car, mas sabe que as cobranças vão se intensificar ainda mais na Renault.

Mas Piquetzinho não foi o único a viver momentos delicados no GP Austrália. Giancarlo Fisichella também merece uma citação na sessão que se destina a lembrar das patacoadas da prova australiana. Veterano que é, Físico foi capaz de errar a entrada de boxes da Force India. Sensação de que, sai ano, entra ano, e a equipe indiana continua mergulhada entre as pequenas.

A personagem que mais sofreu, porém, foi a Ferrari. Além da falta de ritmo evidente durante a corrida, a equipe provou que a eficiência do KERS é altamente discutível. O equipamento teve pouca relevância para Massa e Raikkonen na disputa por posições. No fim das contas, nenhum dos dois terminou a corrida, Massa com problemas mecânicos, Raikkonen por bater sozinho no muro e danificar a parte dianteira do carro. Coroaram assim o pior começo de temporada vivido pelo cavalinho rampante em mais de 15 anos.

Quase no fim da corrida, no entanto, ocorreu o lance que decidiu a vida de Rubens Barrichello e determinou sua volta ao 2º lugar da corrida.

No giro 56, Barrichello estava em 4º, já resignado com a posição que, depois de tantos toques durante a corrida, não era ruim. Mas um incidente entre Vettel e Kubica mostrou que a sorte estava do lado do brasileiro em Melbourne.

Kubica, em 3º, com mais desempenho e pneus menos gastos, se aproximou rapidamente de Vettel, em 2º, que sofria com o desgaste dos compostos. Os dois dividiram uma curva lenta da pista e saíram tracionando lado a lado. Vettel, afobadamente, decidiu que tinha direito de ir empurrando Kubica para fora do traçado. O polonês, não menos burramente, teimou em se manter ao lado do alemão. Resultado: o toque que retirou as asas dianteiras de ambos. Fim abrupto e desnecessário para dois dos mais elogiados pilotos do grid.

Do lado positivo da corrida, Nico Rosberg mostrava-se um ferrenho batalhador que não se intimidou diante da Ferrari de Raikkonen ou do carro de qualquer outro adversário. Pena que a escolha dos pneus macios para o terço final da corrida tenha lhe roubado a possibilidade de um pódio.

Outro que surpreendeu positivamente foi Lewis Hamilton. Partindo da 18ª colocação e com o péssimo carro da McLaren, o campeão foi o único das equipes ditas grandes até o ano passado a terminar a prova. O desempenho de Hamilton, porém, deve ser analisado sob a luz das batidas/abandonos de Massa, Kubica, Vettel, Nakajima, Raikkonen, além dos problemas de pneus de Rosberg e da desclassificação de Jarno Trulli que, largando do fim da fila, fez uma corrida valente, mas foi punido por realizar uma ultrapassagem sob bandeira amarela.

Quem, definitivamente, vai deitar a cabeça no travesseiro maravilhado é Sebastian Buemi. O único estreante da temporada conseguiu terminar sua primeira participação na F-1 na zona de pontuação.

O GP Austrália foi, enfim, a corrida dos estreantes!

GP Austrália, após 58 voltas:

1. Jenson Button - Brawn GP - 58 voltas

2. Rubens Barrichello - Brawn GP - a 0s8

3. Lewis Hamilton - McLaren - a 2s9

4. Timo Glock - Toyota - a 4s4

5. Fernando Alonso - Renault - a 4s8

6. Nico Rosberg - Williams - a 5s7

7. Sebastien Buemi - Toro Rosso - a 6s

8. Sebastian Bourdais - Toro Rosso - a 6s2

9. Adrian Sutil - Force India - a 6s3

10. Nick Heidfeld - BMW - a 7s

11. Giancarlo Fisichella - Force India - a 7s3

12. Jarno Trulli – Toyota – punido

13. Mark Webber - Red Bull - a 1 volta

14. Sebastien Vettel - Red Bull - a 2 voltas

15. Robert Kubica - BMW - a 3 voltas

16. Kimi Raikkonen - Ferrari - a 3 voltas (problema mecânico)

17. Felipe Massa - Ferrari - a 13 voltas (batida/problema mecânico)

18. Nelsinho Piquet - Renault - a 34 voltas (escapada)

19. Kazuki Nakajima - Williams - a 41 votas (batida)

20. Heikki Kovalainen - McLaren - a 58 voltas (suspensão)

Austrália - Results & Coments [3]

À Iconoclastia

Iconoclastia (sf): ato de destruir e/ou não respeitar tradições e ídolos.
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A princípio é tudo festa! A Brawn ganhou o GP Austrália, primeira corrida do ano, primeira corrida da vida da equipe, com dobradinha. Jenson Button, dominador, não teve adversários, afinal, o único que poderia lhe incomodar era Rubens Barrichello, que largou muito mal. Sem o companheiro no cangote, Button partiu para uma vitória fácil, já que Vettel, Massa e Kubica jamais puderam sonhar com uma real possibilidade de ultrapassagem. No final, por uma trama do destino, Rubinho papou duas posições e foi comemorar a dobradinha junto com Jenson.

É festa, é oba oba, a F-1 mudou, uma equipe recém-nascida venceu. As antigas forças desabaram perante o ineditismo de tudo o que se viu em Melbourne. Dos 4 carros de Ferrari e McLaren, apenas o de Lewis Hamilton chegou ao final do GP Austrália. É hora de abrir as páginas dos jornais e se deleitar com tudo de novo que a F-1 traz nessa nova temporada, uma temporada que, pelo menos nesse primeiro terço, terá como marca maior a iconoclastia que destitui mitos como o da Ferrari e ídolos como Lewis Hamilton em favor da ascensão da Brawn GP.

Mas até que ponto as coisas realmente são novas nesse filme?

É público, notório e evidente que, há anos, a F-1 deseja se reciclar. Não é de hoje nem de ontem que a categoria tem o desejo de se tornar vitrine de um automobilismo mais aguerrido, mais brigado, mais “na pista” e, por fim, mais emocionante. As corridas vencidas na estratégia e na parada de box tornaram-se o símbolo maior da monotonia que havia se instalado na representante do esporte a motor europeu. Essa monotonia fez com que a F-1 desejasse se parecer cada vez mais com o tipo de automobilismo que se disputa do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos. É a esse cerne, do desejo de se americanizar, que Rubens Barrichello, Jenson Button e Ross Brawn devem agradecer.

Lógico, não tenho a mínima intenção de diminuir o feito da Brawn GP e de todos os envolvidos na curta e já brilhante trajetória da equipe. Tenho sim a vontade de iniciar uma discussão que julgo necessária e que se sobrepõe a tudo isso que aconteceu nas 58 voltas da corrida da Austrália: até que ponto e por que a F-1 tem tanta sede de mudanças e será que o modo escolhido para operar essas alterações é realmente o melhor?

Nos últimos dias, Daniel Médici tem se dedicado a tentar entender como nós, fãs de corridas de carros, temos nos comportado diante da evolução natural que levou o automobilismo a se apresentar da forma atual. A discussão não é superficial, pelo contrário, é profunda e com um nível de complexidade até estranho em se tratando de esporte a motor, como o leitor pode conferir aqui e aqui.

Mas é de questionamentos como esses, levantados pelo Médici, que se parte para tentar entender o carrossel de mudanças que a F-1 viveu nos últimos anos, sobretudo de 2008 para cá, e como essas mudanças podem acabar significando coisa nenhuma.

Foi pela vontade de aumentar o show e de ver o inesperado acontecer que a F-1 passou anos contando com uma comissão que tinha o objetivo de estudar possíveis mudanças que trouxessem de volta as ultrapassagens. O chefe da comissão: Ross Brawn. O engenheiro-chefe da equipe que venceu hoje em Albert Park: coincidentemente é o mesmo Ross Brawn, como o Médici bem lembrou ontem, na minha caixa de comentários, quando discorria sobre a tal “nova” F-1 que se desenha para esse ano: “Ross Brawn era o chefe da famosa comissão de estudos de ultrapassagem, que durante 3 anos elaborou este pacote aerodinâmico que estreou nos carros. Acho que isso explica boa parte dos treinos de hoje.”

Explica, Médici. E explica, obviamente, todo o GP Austrália.

A F-1 desejou romper com a rotineira certeza de que, inevitavelmente e excluindo possibilidades catastróficas, as corridas sempre seriam vencidas pelas mesmas equipes, pelos mesmos pilotos. O conceito de regularidade passou a ser visto como raiz do problema da falta de pulsação das corridas. Mas até onde é desejável o equilíbrio entre emoção e regularidade? A F-1 precisa mesmo ser uma categoria à americana? Isso está presente em sua carga genética?

É lógico que a tentativa de responder a todos esses questionamentos de uma vez só deixa qualquer um atordoado. E parece ter sido justamente esse o problema. FIA, FOM e demais organizadores do campeonato quiseram dar todas as respostas e sanar todos os problemas ao mesmo tempo. E assim construíram um campeonato que pode ser absurdamente enganoso.

Por trás da aparente idéia de que a F-1 voltou a ter a capacidade de surpreender, escondem-se pequenas aberrações e artificialidades que, pouco a pouco, vão sendo incorporadas: hoje em dia o pole já não é mais o cara que dá o sangue com o carro levíssimo na classificação e sequer a volta da pole é a mais rápida do fim de semana. Hoje os pilotos são obrigados a correr com dois tipos de pneus, sendo que um deles é visivelmente inadequado ao asfalto e à pista, tudo para proporcionar mais ultrapassagens e aumentar os índices de “emoção.” Mesmo que o preço seja uma emoção de mentira, como bem vão se lembrar Nico Rosberg, Sebastian Vettel e Robert Kubica.

As artificialidades trazidas à F-1 nos últimos conseguem, de vez em quando, dar a exata noção de como há incoerência entre o que se deseja e o que se tem de fato. A iniciativa de trazer compostos de pneus diferentes e obrigar os pilotos a usar os dois durante a corrida tinha como objetivo proporcionar diferenças de rendimento entre carros e facilitar as ultrapassagens. Hoje em Melbourne o objetivo foi atingido de forma patética. Nico Rosberg teve a corrida plenamente prejudicada e mal conseguia se segurar na pista nas voltas finais, cedendo muitas posições. Sebastian Vettel foi outro que sofreu com os calçados inapropriados e acabou vendendo muito caro uma ultrapassagem que terminou com sua corrida e com a de Kubica. É essa a emoção que a categoria que se orgulha de ser celeiro da técnica de pilotagem quer proporcionar?

E o KERS? Quer maior incoerência do que se anunciar como a categoria mais técnica do esporte a motor mundial e institucionalizar o push-to-pass?

O fato é que a F-1 jamais foi uma Nascar ou uma Indy. O tipo de disputa que existe nos Estados Unidos é muito interessante lá, na América do Norte. A Europa jamais fez questão de disputas indefinidas até o último centímetro. Se acontecesse assim, ótimo, mas o ideal de técnica e qualidade de pilotagem sempre foi colocado acima de todo o resto. A tentativa de fazer a F-1 tornar-se uma Indy do velho continente está apenas produzindo uma cultura de iconoclastia, onde se derrubam mitos para que outros subam. Se continuar a apresentar a superioridade desse fim de semana, a Brawn GP vai encerrar o campeonato muito antes da última corrida, ou seja, todas as mudanças operadas no regulamento vão ser inúteis. A F-1 continuará com uma equipe destacadamente favorita. A única diferença é que, depois de todo o fuzuê pirotécnico que a mudança de regulamento gerou, essa equipe não será vermelha nem prateada.

Se a possibilidade se confirmar, terá ocorrido apenas a substituição de nomes no posto de “equipes grandes.”

Peço licença a Ross Brawn por ignorar e deixar de lado, nesse primeiro momento, a realmente adorável e espetacular façanha de sua equipe. O leitor deve encontrar pela blogosfera e pelos sites especializados, paralelos que deixam claro que o feito da Brawn é absolutamente histórico. O negócio é que o debate sobre as mudanças da F-1 e sobre a forma como essas mudanças são operadas gritava por atenção no meio do oba-oba que se formou em torno da mais nova Ferrari vestida de branco.

Ainda acredito na força de um questionamento infantil e pirracento, mesmo quando todo mundo festeja a “nova” F-1 que começa agora e mesmo não tendo a total certeza a respeito de tudo o que digo aqui. Repito: só acho que o tema clamava por projeção.

Deixe que a Brawn continue a ganhar corridas com a facilidade de hoje e antes do meio da temporada já existirá gente pedindo mudanças e mais mudanças para trazer a emoção de volta. E tudo na F-1 continuará a funcionar da forma como sempre funcionou.

*Sim sim, lendo o post abaixo o leitor irá perceber que eu mudei radicalmente de opinião em cerca de 24 horas. E me reservo a esse direito.

sábado, 28 de março de 2009

Austrália - Results & Coments [2]

A Identidade Brawn

A primeira classificação da temporada, apenas por ser a primeira, já guarda uma série de particularidades entre os torcedores. Costuma ser a primeira oportunidade efetiva de o torcedor ver os F-1 em ação depois do sempre longo período de “férias” da categoria. É uma sessão em que a ansiedade já é naturalmente maior, e nesse caso não só da parte da torcida, mas também dos pilotos, dos mecânicos, e do circo em geral. Apenas por isso, a primeira sessão classificatória já é especial, além de, claro, ser a primeira chance de apurar a geopolítica do paddock. E nesse quesito, a classificação do GP Austrália mostrou definitivamente que há algo de novo na F-1 2009.

Sei não, mas tenho a impressão de que foi qualquer coisa histórica a classificação dessa madrugada de sábado aqui no Brasil.

No princípio, carta fora do baralho, agora, favorita à vitória. A Brawn exibiu tanta superioridade na primeira classificação de 2009 que chega a soar estranho certificar-se de que a primeira fila é toda dela. Jenson Button, espinafrado até aqui nesse blog, dado como piloto sem motivação e como promessa que não aconteceu, é o pole. Rubens Barrichello, veterano, historicamente ignorado pela torcida de seu país, é o segundo. E os dois botaram um caminhão de tempo na concorrência.

Como primeira demonstração oficial da hierarquia da F-1 para 2009, a classificação do GP Austrália deixou uma infinidade de marcas. A primeira e mais óbvia: a Brawn não era blefe. Os dois carros brancos (agora com patrocínio acertado com o Grupo Virgin, que foi especulado como virtual comprador da equipe em janeiro) fecharam todas (todas!) as etapas do treino classificatório na ponta da tabela. Mais rápidos em todos os setores da pista, Jenson Button e Rubens Barrichello disputaram uma classificação particular entre si. A primeira fila inteiramente brawniana é sinal de a nova regra aerodinâmica criou um efeito de bomba de nêutrons a sacudir a categoria máxima. E todo mundo parece ainda se acostumar a esse favoritismo já declarado, mas que ainda aguardava confirmação.

A conquista da primeira fila no grid australiano é o maior reconhecimento que o trabalho de Ross Brawn poderia conseguir. Desnecessário citar mais uma vez os predicados do engenheiro mais cobiçado da atual F-1. Necessário, talvez, é o questionamento: a Honda resolveu sair cedo demais?

Tivesse ficado na categoria, a montadora poderia estar colhendo agora os louros de ser, finalmente, a favorita às vitórias no primeiro terço do campeonato. Esse, afinal, sempre foi o objetivo jamais alcançado pelos japoneses em sua volta à F-1 nos últimos anos. O símbolo maior da mediocridade da Honda nessa década é sua única vitória com Button num GP Hungria confuso, chuvoso e em que alguns favoritos abandonaram e outros ficaram relegados às posições intermediárias. A saída da montadora em dezembro, no cenário de agravamento da crise mundial, não deixa de ser sinal de que medíocre foi pensar em sair da F-1 ao menor sinal da iminência de um prejuízo. Uma dose de paciência e os executivos de olhos puxados poderiam estar diante de uma possibilidade de sucesso paralela a dos anos dourados da empresa na F-1 há 20 anos.

Enfim, a Brawn é favoritíssima amanhã. Resta apenas saber se o ritmo alucinado demonstrado em todos os treinos será mantido na corrida. Se sim, Button e Barrichello disputarão uma corrida isolada entre os dois. Devem chegar uma semana a frente do resto. E depois de fazer história marcando os dois melhores tempos na primeria classificação de sua vida, a Brawn é séria candidata a vencer seu primeiro grande prêmio com dobradinha.

É o maior tapa de luvas que a Honda poderia levar.
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Que Williams que nada! Sebastian Vettel foi quem mais chegou perto da BGP na classificação. Um louvável terceiro tempo na classificação põe o alemão em ótima condição para as 58 voltas de amanhã. É outra daquelas situações cheias de significado que só Vettel é capaz de produzir: sua antiga equipe, com os tais motores Ferrari que eram apontados como foco da superioridade em 2008, ficou para trás logo no Q1. A própria e toda pomposa Ferrari comeu a poeira de Vettel. O companheiro de equipe também ficou (muito) para trás. Por fim, Vettel leva um carro de motor Renault ao 3º lugar, enquanto os dois pilotos oficiais da montadora, com o carro próprio da montadora, sequer chegaram ao Q3.

Ano de regras novas, mas com as mesmas e boas surpresas de sempre.
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Como de costume, a acompanhar Vettel como grande showman da F-1, lá está Robert Kubica. Quarto lugar para o polonês, que continua a dar um banho em Heidfeld. Muda ano, mudam as regras, e a BMW continua a ter em Kubica seu piloto mais regular e competitivo.
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De onde muito se esperava, veio pouco: a Williams foi, de forma relativa, a decepção da classificação. Depois de fazer os dois melhores tempos nos treinos livres de ontem, a equipe inglesa foi discreta na classificação oficial: 5º lugar para Rosberg, 13º para Nakajima.

De toda forma, é notável o ganho de rendimento da equipe de Grove em relação a 2008.
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Toyota no meio do Top-10, dando a impressão de que não basta um difusor eficiente para garantir lugar na ponta.
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Ferrari no meio do texto? Sim, e com algum esforço para estar aqui. Não é confortável a posição do time italiano: 7º lugar para Massa, 9º para Raikkonen. Rumor da vez: os dois vermelhos ficaram no limite do Q2, em 9º e em 10º, e tiveram que suar o macacão para seguir para a superpole. Novos tempos em Maranello.

Não adiantou trazer o KERS, apesar da aparente contribuição que o dispositivo forneceu aos rossos. Perto do desempenho da Brawn, talvez a alta cúpula da Ferrari já comece a questionar a real eficiência do sistema de recuperação de energia cinética.

Porém, jamais se pode desconsiderar os italianos. Nunca se sabe o coelho que os carcamanos podem tirar da cartola e o KERS ferrarista parece ser bem desenvolvido e se integra bem ao conjunto da F-60. Mas mesmo que não haja cartola nem coelho, a Ferrari não é totalmente desconsiderada. É mais um exemplo da tal força psicológica que um nome carrega consigo e sobre a qual falávamos num outro dia. O cavalinho rampante possui essa tal força, é inegável.

Mas, inevitavelmente, a Ferrari já não é mais aquela favorita de 5 meses atrás. O mundo dá voltas...
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Previsão de acirramento da pressão envolvendo o nome de Nelsinho Piquet na Renault. O brasileiro não passou do Q1, ficando com uma indigesta 17ª posição. Depois de passar 2008 justificando os resultados medíocres, levando 18 x 0 na briga de classificações com Alonso e dando desculpas que as vezes eram piores do que o silêncio, Piquetzinho começa 2009 outra vez explicando as razões de um mau resultado. Nelsão, o pai, estava em Melbourne, talvez ciente de que sua presença é necessária para apaziguar a cobrança sobre o filho.

O carro continua ruim, mas a inevitável comparação com o 12º lugar de Alonso coloca Nelsinho numa fogueira. E não há mais a desculpa de que o garoto é estreante.
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Kovalainen 14º, Hamilton 15º. Escancarada a situação de decadência da McLaren. Hamilton, aliás, sequer foi a pista no Q2, ausência justificada pela equipe em razão de um problema de câmbio. Será isso mesmo, ou o time prateado não quis queimar a imagem da estrela?

Fato é que o número #1 no bico do MP4/24 não torna o carro de Hamilton mais veloz. O que era uma mera suposição na pré-temporada materializa-se como uma dura realidade para a McLaren: a equipe foi a que mais perdeu terreno com a mudança radical das regras.
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Na turma que sempre vai embora mais cedo, além do já citado Piquet, há pelo menos uma novidade: Toro Rosso, acostumada a ir ao Q3 no ano passado, não passou do Q1 hoje em Melbourne.

Enquanto isso, a Force India começa 2009 do mesmo jeito com terminou 2008: fim da fila.
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O difusor que tanto deu o que falar mostrou-se um atributo periférico na classificação. Dos 6 carros que usam a polêmica peça (Brawn, Toyota e Williams) apenas a Brawn real e unicamente brigou pela ponta. Garantia, portanto, de que não apenas uma parte isolada do carro a razão do sucesso da equipe, mas o conjunto como um todo.
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Só pelo que aconteceu hoje, a história já vai se lembrar com carinho desse GP Austrália. Cresce a expectativa a respeito do que se dirá no futuro sobre o dia de amanhã. Estamos diante do fim de uma era e iniciando outra?

As 58 voltas do domingo vão nos responder.

Grid de Largada, GP Austrália 2009:

1°. Jenson Button (Brawn), 1min26s202

2°. Rubens Barrichello (Brawn), 1min26s505

3°. Sebastian Vettel (Red Bull), 1min26s830

4°. Robert Kubica (BMW), 1min26s914

5°. Nico Rosberg (Williams), 1min26s973

6°. Felipe Massa (Ferrari), 1min27s033

7°. Kimi Raikkonen (Ferrari), 1min27s163

8°. Mark Webber (Red Bull), 1min27s246

9°. Nick Heidfeld (BMW) 1min25s504

10°. Fernando Alonso (Renault), 1min25s605

11°. Kazuki Nakajima (Williams), 1min25s607

12°. Heikki Kovalainen (McLaren), 1min25s726

13°. Sébastien Buemi (Toro Rosso), 1min26s503

14°. Nelsinho Piquet (Renault), 1min26s598

15°. Giancarlo Fisichella (Force India), 1min26s677

16°. Adrian Sutil (Force India), 1min26s742

17°. Sébastien Bourdais (Toro Rosso), 1min26s964
18°. Lewis Hamilton (McLaren), sem tempo
19°. Timo Glock (Toyota), punido
20°. Jarno Trulli (Toyota), punido
Atualizado em 28/03/09, às 17:04

sexta-feira, 27 de março de 2009

Austrália - Results & Coments [1]

Difundindo uma Idéia

Melhores tempos do dia em Melbourne:

1. Nico Rosberg - Williams, 1min26s0532
2. Rubens Barrichello - BrawnGP, 1min26s1573
3. Jarno Trulli - Toyota, 1min26s3504
4. Mark Webber - Red Bull, 1min26s3705
5. Jenson Button - BrawnGP, 1min26s374
6. Timo Glock - Toyota, 1min26s443
7. Kazuki Nakajima - Williams, 1min26s560
8. Sebastian Vettel - Red Bull, 1min26s740
9. Kimi Räikkönen - Ferrari, 1min26s750
10. Adrian Sutil - Force India, 1min27s040
11. Felipe Massa - Ferrari, 1min27s064
12. Fernando Alonso - Renault, 1min27s232
13. Giancarlo Fisichella - Force India, 1min27s282
14. Nick Heidfeld - BMW, 1min27s317
15. Robert Kubica - BMW, 1min27s398
16. Heikki Kövalainen - McLaren, 1min27s453
17. Sebastien Bourdais - Toro Rosso, 1min27s479
18. Lewis Hamilton - McLaren, 1min27s813
19. Nelsinho Piquet - Renault, 1min27s828
20. Sebastien Buemi - Toro Rosso, 1min28s076

Pitacos Australianos:

- Pouco a comentar, até porque só consegui ver primeira sessão, e ainda assim em condições nada favoráveis. O que dá pra dizer é que se a Brawn, a Toyota e a Williams mantiverem o bom rendimento na classificação e na corrida, a chiadeira vai ser grande. A difusão da idéia de que é o difusor que concede superioridade aos três times vai proporcionar um chororô grande nas outras equipes;

- Ah, a Williams liderou a primeira sessão com força total: Rosberg foi o 1ª, Nakajima o 2º. Marcão não deve estar se contendo, né?

- Um treino, porém, é muito pouco. Na verdade, um final de semana não é o suficiente para afirmar com certeza que há uma nova ordem na F-1. Mas já é interessante imaginar um novo cenário no grid, com as grandes buscando evolução a todo preço;

- Fica assim então: na próxima madrugada rola a classificação, às 3 da matina na Globo. Nada como uma sessão-coruja para começar bem a temporada.

quinta-feira, 26 de março de 2009

A mesma praça, outro jardim: Austrália 2008

Em março do ano passado a Fórmula-1 se perguntava: a Ferrari seria imbatível em 2008? A pré-temporada fora muito proveitosa à equipe italiana e Felipe Massa e Kimi Raikkonen, o então campeão, chegavam a Melbourne na condição de favoritos absolutos. Nada como um grande prêmio tumultuado para estragar as previsões de domínio dos comentaristas!

A outra grande novidade daquela corrida de estréia era o fim do controle de tração. A medida humanizou a pilotagem e tirou os pilotos de seu pedestal inalcançável de perfeição. Era preciso aprender a dosar o pé no acelerador e controlar o carro com perfeição nas saídas de curva. Felipe Massa aprenderia a necessidade de um rápido aprendizado de forma um tanto quanto traumática.

Depois de muita expectativa pela F-1 sem controle de tração, o dia 15 de março viu acontecer a primeira classificação sem o dispositivo em anos. A sessão foi marcada por imagens de um Lewis Hamilton escorregando com as quatro e controlando o MP4/23, para delírio dos mais saudosistas. Muita gente apressou-se em dizer que verdadeira F-1 estava de volta.

Logo no Q1 a Ferrari começou a desenhar o caos que lhe era reservado para o domingo: Kimi Raikkonen, o homem que defendia o título, apresentou um problema mecânico e ficou limitado ao 16º lugar no grid. Um mau começo para quem vinha de uma pré-temporada arrasadora.

Ficou, portanto, para Felipe Massa a expectativa de pole position, sobretudo pelo desempenho da Ferrari nos testes de inverno e pelo grande destaque que toda a mídia e os comentaristas davam ao F-2008. Para desespero de quem fez apostas levando em consideração as páginas do jornais, o brasileiro não fez nada melhor do que o 4º tempo. A pole ficava com a McLaren de Lewis Hamilton. Em 2º, uma grande surpresa: Robert Kubica, da BMW, ficara a apenas 0,155s do inglês. Era a demonstração de força da equipe que se mostraria desafiante em 2008.

Kovalainen em 3º e Heidfeld em 5º suscitavam expectativas de que a corrida fosse particularmente disputada entre McLaren e BMW, com a Ferrari de Massa correndo por fora. Mas o domingo australiano faria da abertura da Temporada 2008 uma das mais confusas e divertidas do passado recente.

Logo na primeira volta vários toques fizeram com que 5 carros abandonassem a prova. O toque mais relevante, no entanto, não era o mais grave do ponto de vista do impacto, mas sim da importância de quem se acidentou: Felipe Massa rodou infantilmente na saída da curva 1, batendo de leve na proteção de pneus e vendo todo o pelotão passar por si. Era o começo do inferno-astral da Ferrari na corrida, e de Felipe no campeonato.


Difícil avaliar até em qual ponto a ausência do controle de tração foi a responsável por incidentes como os de Massa e os outros que se viram durante a corrida. É preciso levar em conta que a geração atual é marcada pela divertida rotina de afobamento misturada a falhas um tanto quanto pitorescas, sem falar nas características particulares do circuito de Albert Park, um misto de parque com ruas da própria cidade de Melbourne, onde o asfalto geralmente fica repleto de detritos que dificultam a pilotagem fora do “trilho.” Além disso tudo, o muro está sempre a uma distância relativamente próxima.

A verdade é que pelas as circunstâncias da corrida, a primeira da F-1 sem o controle de tração em anos, tudo foi interpretado como festa e louvou-se o banimento do CT como o motivo das seqüências de quebras e batidas. A comemoração em torno da saída do dispositivo não era totalmente injustificada, porém, era exagerada. As corridas subseqüentes, como o chatíssimo GP Malásia provariam que apenas a ausência de um aparelho eletrônico era muito pouco para fazer da F-1 o show que os organizadores desejavam (e ainda desejam).

A corrida seguiu, com os dois ferraristas a vir do final do pelotão, tentando desesperadamente avançar. E em suas tentativas de ultrapassagem, Raikkonen e Massa não hesitaram em exagerar e levar suas disputas às últimas conseqüências. Resultados: duas saídas de pistas para Raikkonen; um enrosco de Massa com Coulthard que resultou em fim de corrida para o escocês, com a suspensão quebrada. A manobra discutível de Massa, que tentou dividir a curva mesmo estando com mais de meio carro atrás da RBR, gerou palavras duras da parte de David: “eu olho para frente, não para trás. Ele tinha melhor visão do que iria acontecer. Ele está disputando o mundial, eu não.”
Para completar o fim de semana de pesadelo de Massa, seu F-2008 não completou a prova, confirmando o péssimo início de ano do brasileiro.

Voltas depois, um susto: a Toyota do estreante Timo Glock saiu da pista, atingiu um desnível na grama e levantou vôo como um avião. O carro voltou a pista semi-destruído, provocando imagens plasticamente bonitas para quem gosta de batidas. Glock saiu do que restou de sua Toyota ileso.


Enquanto isso, Lewis Hamilton seguiu intocável, a despeito das seguidas entradas do Safety Car. Correu sozinho, como se não existissem adversários.

Quase no final da corrida, o impensável acontece com a Ferrari: a favoritíssima equipe vê Kimi Raikkonen abandonar a prova a 6 voltas do fim, porém, classificado em 8ª, devido às várias quebras que reduziram o número de carros a chegar ao final a apenas 7.De toda forma, foi um duro golpe no cavalinho rampante. Dois motores quebrados na primeira corrida do ano, prévia do campeonato complicado que seria vivido pelo tiffosi.

A grande surpresa do final da corrida era a presença de Rubens Barrichello entre os pontuáveis. Beneficiado com a hecatombe que dizimou mais da metade dos carros ao longo da corrida, o brasileiro caminhava para um pódio. No entanto, a entrada nos boxes com as luzes vermelhas acionadas levou o brasileiro a ser desclassificado após o fim da corrida.

Ao final das 58 voltas, Lewis Hamilton venceu com autoridade, seguido por Heidfeld e Rosberg (este último dando a falsa impressão de um bom ano para a Williams), num pódio incomum. Seria, na verdade, uma dobradinha da McLaren, não fosse a azarada entrada do Safety Car justamente às vésperas do reabastecimento de Kovalainen, que foi obrigado a esperar o pit lane se abrir. Mesmo assim, chocolate de Ron Dennis: a McLaren foi a única equipe a terminar a corrida com os dois carros intactos.
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Pequeno resumo da corrida:


O Ano da Confusão

Num outro dia eu chamava atenção para a possibilidade de vivermos em 2009 um dos campeonatos mais confusos da história, com contestações, e decisões de prova saindo no tapetão. Não imaginava, porém, que o salseiro se iniciasse antes de o primeiro ronco de motor ser ouvido em Melbourne.

Os difusores (peça localizada no fundo da parte traseira do carro, com o objetivo de “limpar” o ar e proporcionar maior estabilidade) da Brawn, Williams e Toyota, que levantaram suspeitas das outras equipes, foram considerados legais pelos comissários. Ferrari, Renault e Red Bull, autoras do pedido de investigação, já avisaram que irão recorrer da decisão na Corte de Apelações da FIA por considerarem a peça irregular nos carros das equipes primeiramente citadas. O imbróglio: a reunião da corte só será possível depois do GP Malásia, em abril. Ou seja, duas corridas podem ficar com o resultado em suspenso, dependendo de uma decisão que não será resolvida na pista.

É um péssimo começo para uma temporada que gerou muita expectativa positiva.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Pré-2009: O que vem do meio, te atinge?

Num ano que começaria já sob ambiente confuso, com ecos da crise financeira a assolar as montadoras e causarem a saída de uma delas, as novas regras instituídas à F-1 apenas ajudariam as equipes médias a sonhar com a possibilidade de evoluir e chegar mais perto das grandes. Foi com esse intuito que o regulamento técnico foi alterado: para democratizar a vitória e tirá-la da panelinha Ferrari-McLaren. A grande pergunta que se faz a poucos dias da abertura do mundial é: será que vai funcionar?

O leitor já deve estar sabendo: a crise exige que as equipes diminuam os gastos para que a categoria continue viável. Além disso, a influência da aerodinâmica nos carros, alma da F-1 moderna, foi reduzida, teoricamente com o objetivo de facilitar a aproximação e, por extensão, as ultrapassagens. O ambiente de mudanças produziu carros esquisitos e uma tremenda incerteza quanto à efetividade das medidas, que ainda só começaram a ser implantadas. Para os próximos anos são esperadas padronizações de várias partes do carro, além da adoção de um limite de gastos que torne a F-1 atrativa a um maior número de interessados. É, talvez, o fim da era de orçamentos com três dígitos na casa do milhões.

Antes de falar nas tais equipes médias, um esclarecimento: a Toyota, por exemplo, pode ser considerada uma equipe média? Uma equipe que gastou, estima-se, mais de 400 milhões de euros em 2008? Sim, para efeitos práticos, sim. O termo “média” será usado aqui para designar equipes que ficam no meio do grid. Será uma atribuição “geométrica” e não financeira.
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A expectativa em torno dessas equipes ditas médias aumentou muito com a nova F-1 que estréia no próximo fim de semana. Entre as médias, muito se espera da BMW, a equipe que incomodou as grandes na primeira metade do ano passado, liderando os mundiais, tanto de construtores como de equipes. BMW que, aliás, cumpriu todas as metas de seu plano de desenvolvimento na F-1. Em 2007 a equipe esperava brigar por pódios, conseguiu. Em 2008 os bávaros ambicionavam as primeiras poles e vitórias e conseguiram. Em 2009 o alvo do time é brigar pelo caneco. A continuar com a rigorosidade monástica de trabalho quem põe em dúvida a capacidade dos alemães?

Considerando ainda a dupla de pilotos com a qual Mário Theissen, o chefe de equipe, trabalha, é impossível não criar esperanças de bons resultados para a BMW. Robert Kubica e Nick Heidfeld formam uma dupla que, no conjunto da obra, só fica devendo à Ferrari, em nível badalação que envolve os dois nomes. Kubica por ser um dos novatos-gênios que chegaram à F-1 nos últimos anos, demonstrando talento suficiente para já ser apontado como um dos melhores do grid. Heidfeld pela experiência de mais de 150 largadas e pelo talento que, se ainda não se converteu em vitórias, é inegavelmente presente no estilo de pilotagem do alemão.

Juntando o bom trabalho desenvolvido pela BMW à qualidade de sua dupla de pilotos, cresce a expectativa em torno das reais capacidades do time bávaro.
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As outras equipes consideradas médias vêm de um grande equilíbrio. Em 2008 Renault, Toyota, Red Bull, Williams e Toro Rosso brigaram ferozmente pelos lugares intermediários e pelo direito de ir ao Q3, sessão final de classificação em que só são admitidos os 10 mais rápidos. Para todas essas equipes, há expectativa de crescimento e de maior acirramento na disputa. Mas no quesito “piloto”, duas podem desequilibrar.

Fernando Alonso da Renault e Sebastian Vettel na Red Bull são sinônimos de interesse e curiosidade da parte do público. Foram duas das surpresas de 2008, por motivos obviamente diferentes: Alonso por conseguir extrair leite de pedra e vencer duas corridas com o fraco R28, provando suas capacidades e seu oportunismo a quem ainda tivesse dúvidas. Vettel pela boa temporada e pela constante presença nos pontos, sem falar nas impressionantes pole e vitória com chuva em Monza. Ambos ganharam credenciais de showman no ano passado e, sem a obrigação de vencer (afinal, estão em times médios), são candidatos a continuar surpreendendo.
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A Toyota chegou a impressionar nos testes de inverno. O TF109, modelo da equipe para a temporada, chegou a liderar algumas sessões de testes, mas ainda não mostrou confiabilidade suficiente para ser apontada como favorita. A Williams mantém-se sob as nuvens, e a capacidade de seu FW31 ainda desperta dúvidas. Na Toro Rosso o maior destaque é a semelhança do STR4 com o RB5 da co-irmã RBR. Nada mais.

Resta, enfim, a maior surpresa da pré-temporada: a Brawn GP. O time que chegou abalando as estruturas e liderando sistematicamente os treinos vai a Melbourne na condição de favorito. A continuar andando segundos a frente das rivais, a BGP é mesmo favorita, mas não ao GP Austrália e sim ao mundial. Mas é cedo para elevar a BGP a tão alto patamar. Uma equipe surgida de uma grande incerteza numa época de incertezas precisa ser avaliada com cuidado durante a temporada.

Não restam dúvidas, porém, de que o que vem de baixo pode sim atingir as grandes. E é esse o desejo do planeta-motor.

Adjetivando Ecclestone

Explica-se assim o mais novo caso que ilustra o senso de justiça torto que rege a mente dos homens que administram a F-1: a Brawn não aceitou a ajuda financeira de Bernie Ecclestone, que desejava se intrometer na FOTA. Em retaliação, Ecclestone considerou a BGP uma equipe totalmente nova e que, de acordo com o regimento da categoria, não receberá de imediato os dividendos relativos ao direito de imagem.

Em miúdos: a situação da BGP começa a inspirar cuidados. A equipe não tem patrocinadores e agora sabe-se que também não receberá os direitos da FOM.

Enquanto isso, Bernie Ecclestone vai provando aos poucos que apesar da senilidade ainda é um garotinho: quer comandar um negócio super-profissional com estratégias infantis. Para o chefão o jogo só vale se for jogado do jeito dele.

É assim que os chefões da F-1 querem incentivar novos empresários a criar equipes: tendo zero de bom senso e respeito a acordos.

Incoerente, infantil, irritante e, no mínimo, leviano. São os adjetivos usados com freqüência para ilustrar o grau de comprometimento de Ecclestone e CIA com o esporte que eles têm nas mãos.