sexta-feira, 17 de abril de 2009

[Informativo] Feriadão OFF

Por razões que não permitem apelações no Corte Mundial, o Olho-Chefe estará impossibilitado de atualizar o blog durante o feriadão. É uma lástima. Pretendo sim assistir ao GP China, mas certamente não terei uma internet decente a minha disposição até a próxima terça ou quarta-feira.

É uma pena, mas é daquelas situações que são inapeláveis.

Bom feriado, e boa dobradinha da Brawn a todos nós!

Um azulão desses daqui me aguarda:



quinta-feira, 16 de abril de 2009

Tchau Ron!

De última hora fico sabendo que Ron Dennis se desligou totalmente da divisão esportiva da McLaren, equipe que se tornou mito por meio de suas mãos. O inglês vai agora se dedicar ao projeto McLaren Automotive, uma divisão da empresa que se aventurará no mercado de carros de rua.

Em janeiro Dennis já havia passado o comando esportivo da equipe de F-1 ao seu braço-direito, Martin Whitmarsh. Foi o momento de culminância de um processo gradativo que se desenrola há anos em Woking.

No início do ano, à época do anúncio do afastamento inicial de Dennis, o Olho-Chefe prestou sua reverência ao homem que, se não pode ser admirado pela arrogância, antipatia e prepotência, deve ser elevado ao Olimpo pela bela história que tem para contar, uma história que se confunde com a de grandes mitos do esporte a motor.

Hoje eu talvez escrevesse o texto de despedida de Ron de outra forma (quem bloga, como eu, entende como a gente se sente ao reler uma produção antiga). De toda forma, foi uma postagem que me deu trabalho e que creio que vale a pena ler de novo, clicando aqui.

Talvez não seja a melhor hora para abandonar seu projeto de vida, afinal, a McLaren encontra-se envolvida em um escândalo (por mais que eu ache que o tal "escândalo" tenha mais a ver com sanha punitiva da FIA do que com qualquer outra coisa). Mas a hora há de chegar para todos, e Dennis parece ter encontrado a sua.

Tchau Ron!

A Mesma Praça, Outro Jardim: China 2008

O acontecimento de um GP China nesse período do ano é estranho. A prova oriental sempre esteve colocada na segunda metade no ano, quase no final, na ronda extra-Europa que a F-1 faz ao final das temporadas. Nesse ano, porém, a corrida em Xangai foi adiantada e o GP China 2009 irá se realizar pouco menos de 6 meses após a edição de 2008.

A corrida do ano passado, portanto, é recente, e bem fresca na memória de todos. Na verdade deveria ser uma corrida esquecível, pela monotonia com a qual Lewis Hamilton passeou pelo circuito de Xangai. Lewis só não foi o mais rápido no warmup de sábado, antes do treino classificatório. Em todas as outras as outras atividades, o inglês liderou a lista de tempos, ou seja, foi pole, venceu e fez a volta mais rápida da prova. Tudo isso na penúltima etapa de um mundial que seria decidido na última curva.

A escandalosa vantagem da McLaren e a característica do arquitetonicamente belo, mas esportivamente enjoado circuito chinês, fizeram do GP China (junto ao GP Malásia, que também foi um porre, diga-se) o mais chato de 2008.

O inglês correu como campeão, impecável, seguro, até mesmo pela imensa e surpreendente superioridade que o MP4/23 lhe proporcionou. Em Xangai, pista onde a Ferrari é a histórica vencedora, o F-2008 levou um baile massacrante. Restou a Felipe Massa, o oponente de Lewis na disputa pelo caneco, fazer uma corrida burocrática, distante até do companheiro Kimi Raikkonen, e contar com o jogo de equipe a 8 voltas do fim, quando o finlandês cedeu o 2º lugar ao brasileiro na intenção da minimizar o prejuízo da colossal vitória de Hamilton.

O campeonato se despedia da China e ia para São Paulo com o seguinte placar: Hamilton 94 X Massa 87.

O resto foi história.

Resumo do GP China, aquele oficial, que a FIA disponibiliza no site. Em alguns casos, como nesse de Xangai, o resumo fica mais interessante do que a corrida:


quarta-feira, 15 de abril de 2009

É Tão Legal...

Acabou a festa, o difusor foi considerado legal pelo Conselho Mundial, a FIA fez o dever de casa e deu o veredicto esperado. Brawn, Toyota e Williams vão poder continuar a usar o equipamento com “dois andares”, se aproveitando da melhor eficiência aerodinâmica proporcionada pelo difusor “duplex.”

À Ferrari, Renault e CIA, resta chorar, reclamar, resmungar e espernear.

E não fiquem em prantos a vida toda, porque o tempo (e possivelmente, o dinheiro) para readaptar os carros ao difusor duplo será curto.

O mundial segue calmamente, para alívio de todos. E a Brawn, sem alguém que tenha um carro tão competitivo como o seu e com o difusor definitivamente legal, agora é, com toda a certeza, franca favorita a tudo nessa primeira metade de campeonato. Assim como a Ferrari podia se gabar de ser enquanto o Brawn era o responsável pelas patrulhas na primeira metade dessa década.

Aos ferraristas mais apaixonados, fica o consolo: Ross Brawn pintou a Ferrari de branco.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Minha Pele de Ébano

A mais nova pseudo-polêmica da F-1 é levantada pelo alemão Adrian Sutil, da Force India: estaria Lewis Hamilton sendo vítima de racismo?

Na qualidade de grande amigo do piloto inglês, Sutil levantou a discussão em declarações a diários europeus. O alemão questionou a quantidade e a freqüência com que Hamilton foi e é punido e tentou ligar as punições à cor da pele de Lewis.

Eu confesso: meu maior temor ao ver um negro pela primeira vez num esporte elitista como a F-1 não foi presenciar manifestações racistas nas arquibancadas. Meu maior temor foi ver a discussão a respeito do racismo, inevitável e ainda (infelizmente) presente na sociedade mundial, ser deturpada como ela parece estar sendo agora.

Hamilton se vê costumeiramente punido porque é simplesmente afobado. Talvez sua juventude explique sua falta de paciência para disputar posições e lhe valha alguns penaltys. Cor da pele não. Hamilton apenas pertence a uma geração que erra muito, assim como Massa, Raikkonen, Kubica e Vettel. Certamente há um exagero na quantidade de punições que os comissários andam distribuindo durante as corridas, mas o exagero se estende a todos, alemães, britânicos, italianos, brasileiros, japoneses, finlandeses e poloneses. Pretos, brancos, amarelos e mestiços.

Também entra na discussão uma possível perseguição que a McLaren esteja sofrendo, perseguição movida, talvez, por um vingativo Max Mosley que, eventualmente, acredite que Ron Dennis seja a força motriz por trás do tal vídeo sadomasô que expôs o presidente da FIA. Mas isso é só especulação, e, ainda que fosse fato confirmado, a perseguição nada teria a ver com a pessoa Hamilton, e sim com Ron Dennis e a equipe McLaren como um todo.

É preciso cuidado ao lidar com o assunto, especialmente quando a mídia (sobretudo a inglesa) parece motivada a jogar lenha na fogueira, transformando a reação do público em Interlagos, no último GP Brasil, em racismo. O racismo não esteve presente em São Paulo na última decisão de título. Hamilton foi sim vaiado a cada aparição nos telões espalhados pelo circuito paulista, mas em uma situação extremamente peculiar em que o inglês disputava o título contra o piloto da casa. Nada que justificasse o chororô de Anthony Hamilton, pai de Lewis, dizendo-se chateado e decepcionado pelo fato de o Brasil ser um país racista. Se parasse para pensar, Anthony, Lewis e CIA perceberiam que sequer faz sentido falar de racismo num país de tanta mistura como o Brasil.

Não fazia sentido falar em racismo em São Paulo em novembro como não faz agora. O aumento das punições é realidade para todos os pilotos. Faz parte da patética política adotada pela FIA, algo que já recebeu a consagrada denominação de race control pelo Daniel Médici. Botar a cor da pele dos indivíduos numa discussão como essa soa como falta de auto-estima da parte de quem o faz.

É recomendável parar com o mormaço a respeito da discussão a respeito do racismo na F-1, ou logo logo, de deturpação em deturpação, será exigida a adoção de cotas para negros no grid de largada. Falemos de discriminação quando (tomara que não precisemos) ela existir a sério. Nos mais, vamos continuar a acompanhar corridas de automóvel.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

[OFF] Ócio Não-Criativo

Perguntas freqüentes que invariavelmente surgem depois que o blogueiro fica dois dias sem blogar:

- Você tá passando mal?

Não

- Você enjoou do blog?

Não

-Você viajou?

Não

- Você morreu?

Também não.

- Qual o motivo da ausência, então?

Ah, preguiça, tremenda falta de novidades, irritação com essa novela mexicana de última categoria que se formou em torno do Hamiltongate e etc. Vou jogar a real: enjoei foi de falar de casos extra-pista. Irrita-me esse ar de revista Contigo que os sites especializados ganham de tempos em tempos.

Não tenho vocação para tocar um blog sobre celebridades.

Imaginem então que eu sou uma espécie de Raikkonen, de bermudão, com um picolé Magnum numa mão e uma lata de Coca-Cola em outra, além, é claro, de um ovo de chocolate Garoto desembrulhado me esperando na mesa da cozinha. Saco cheio, joguei a toalha, vou curtir um fim de semana de ócio não-criativo.

Segunda-feira eu volto. Feliz páscoa! Mas se lembrem que chocolate demais tem potencial para um homérico piriri.

Boas coelhadas para todos!

*É tão bom ser seu próprio chefe. Tô me sentindo o rei da cocada preta. Eu mesmo me dei folga. Quero essa vida pra sempre!

terça-feira, 7 de abril de 2009

Mais do Mesmo: um picolé, e o início de crise na Ferrari

Felipe Maciel já havia chamado atenção ontem: a cena mais insólita do GP Malásia não foi a dos carros rodando em linha reta ou a da câmera onboard de Rubens Barrichello denunciando a ausência de visibilidade. Foi a de Kimi Mathias Raikkonen de bermuda, chupando um picolé enquanto o restante dos pilotos ainda aguardava o hipotético reinício da prova. Com sua habitual frieza e seu senso de individualidade, Raikkonen definiu, num lance só, sua insatisfação com os erros da equipe Ferrari e sua indisposição de arriscar a pele numa pista indirigível. O ineditismo da cena fez com que o finlandês roubasse sua própria cena.

Acusem o campeão de 2007 do que quiserem: instável, talvez desinteressado, um tanto quanto distante em termos de torcida. Só não digam que o cara não possui personalidade. Raikkonen é, no poço de idéias por vezes enganosas e dissimuladas que é a F-1, um cara irremediavelmente autêntico. As vezes acaba ferindo o ego de quem prefere fazer cena. Esse tipo de atitude não existe com o nórdico. Quando entrevistado, Kimi costuma dar nomes aos bois e indicar falhas com uma tranqüilidade e honestidade incomuns. Raikkonen, aliás, é um dos poucos com personalidade suficiente para deixar claro que não gosta de microfones e não suporta a falsa badalação que rodeia a categoria máxima. O ferrarista carrega consigo um quê de Nelson Piquet, sem a irreverência do tricampeão, mas com um senso individual bem delineado que o difere da maioria dos pilotos na hora de agir e de dar declarações perante o público.

No último domingo, entretanto, Raikkonen nem precisou abrir a boca. Saiu do carro, tirou o macacão, e deliciou-se com um picolé. A sobremesa bem que poderia ser uma banana, numa mensagem subliminar enviada ao QG da Ferrari, que destruiu sua corrida. Mas um picolé também carrega alguns significados: o homem de gelo continua mais gelado do que nunca.

A cena remeteu a uma F-1 romântica, quando os pilotos ainda tinham alguma liberdade para agir por conta própria, para se indispor a correr em lugares que julgavam sem segurança, livres da tendência de serem tratados como gado ou massa de manobra. Talvez a imagem de Raikkonen, campeão, integrante da rubra e onipotente Ferrari, ainda não tenha sido avaliada em toda a sua grandeza: foi a maior demonstração de personalidade individual de um piloto em décadas! O cara negou-se a correr, mesmo sendo representante da equipe mais tradicional e cheia de pompa e blábláblá do paddock. Enquanto todo mundo permanecia no grid esperando pelo hipotético reinício da corrida, brigando por migalhas de pontos, Kimi enviava um Magnun de chocolate a todos: “eu não me arrisco por pouca coisa.” Simples assim.

Raikkonen não é uma liderança influente na GPDA, a Associação dos Pilotos de Grande Prêmio. O finlandês sequer expõe interesse em ser um dos guardiões da segurança nas pistas. Mas seu picolé e seu bermudão fizeram mais pelos pilotos do que o HANS (o tal Head and Neck Support, surgido no início da década para evitar o chacoalhar excessivo da cabeça dos pilotos em caso de colisões) ou a reforma de Hockenheim. Kimi Raikkonen, com um lúdico picolé, lembrou aos volantes da F-1 que ainda é possível se indispor com a categoria. Basta estar “nem aí” e manter-se gelado como um picolé, mesmo sob o calor malaio.
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A indiferença com a qual Raikkonen encarou o GP Malásia foi, sob uma das óticas, um protesto mudo contra as pixotadas da Ferrari. Equipar o carro do finlandês com pneus biscoito com o asfalto seco foi das maiores demonstrações de amadorismo dos últimos tempos. E logo na Ferrari, equipe que se notabilizou por ser uma papadora de vitórias profissional nos últimos anos. O pior é o boato que corre na imprensa alemã: quem teria sugerido a instalação dos pneus de chuva extrema no carro de Kimi? O heptacampeão e símbolo maior da reconstrução vermelha, Michael Schumacher! Se o rumor foi verdadeiro, fica no ar a pergunta: por que o alemão se intromete em estratégias de corrida? Seu cargo de “consultor” lhe fornece autoridade para tal função?

Eis a chave do problema de Maranello. O desmantelamento do dream team que botava ordem no galinheiro italiano (Rory Byrne, Ross Brawn, Jean Todt e CIA) nos últimos anos custou caro. A equipe se viu, de uma hora para outra, sem liderança. E num cenário desses sobram caciques para comandar poucos índios. O time começa a bater cabeça sem a presença de um macho alfa para subjugar os outros. Stefano Domenicali já deixou clara a inaptidão para ser o capo da máfia rubra ferrarista. E sem um líder personalista, os italianos já mostraram que são capazes de se anular, como os anos 80 e 90, com o gradual afastamento de Enzo Ferrari, exemplificaram bem.

O cavalo rampante, antes impecavelmente adestrado, começa a perder o rumo...

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Malásia - Memories: 2002

Março de 2002, segunda etapa do mundial, Sepang.

A F-1 chegava a Sepang precedida por um GP Austrália movimentado. Na corrida anterior, Rubens Barrichello foi retirado da corrida pelo alemão Ralf Schumacher, da Williams, logo na primeira curva. Sem dois fortes candidatos à vitória, o GP Austrália apenas assistiu ao desfile de Michael Schumacher, ainda correndo com o carro de 2001, que recebeu a bandeira quadriculada com margem confortável em relação ao segundo colocado.

Na Malásia, porém, ficaria claro que a Ferrari precisava ser esforçar para colocar o F-2002 na pista o mais rápido possível. No sábado, o alemão da Ferrari até conseguiu cravar a pole, com Juan Pablo Montoya em 2º, Barrichello em 3º e o Schumacher caçula em 4º. O domingo, no entanto, seria um dia difícil para os italianos.

Na largada, Michael fechou a porta de Montoya, que se aproveitou da melhor partida proporcionada pelo motor BMW de sua Williams e dividiu a primeira curva com o então tetracampeão. A disputa culminou em um toque entre ambos. O bico da Ferrari de Schumacher se soltou e foi para o assoalho do carro do colombiano, que perdeu muitas posições enquanto tentava se livrar do apêndice ferrarista. Com os dois favoritos enfrentando problemas, Rubens Barrichello e Ralf Schumacher passaram a dominar as ações.



O brasileiro precisou suar o macacão para manter o irmão de seu companheiro de equipe a uma distância razoável. Barrichello não conseguiu desgarrar de Ralf, mesmo estando o alemão com tanque cheio, para fazer apenas uma parada, contra duas de Rubinho. Como o brasileiro não foi capaz de abrir os pouco mais de 20 segundos necessários para fazer a segunda parada e voltar a frente, Ralf assumiu a ponta do GP Malásia. Barrichello seria o 2º, não fosse traído pela quebra do motor de sua Ferrari.

Enquanto a briga pela ponta acontecia de forma morna, Michael Schumacher e Juan Pablo Montoya esforçavam-se para avançar entre o pelotão. Schumacher caíra para o último lugar por precisar ir aos boxes recolocar o bico de seu carro. Montoya, no absurdo dos absurdos, foi considerado culpado pelo toque típico de corrida ocorrido na largada e também encontrava-se na rabeira. Os dois aproveitaram-se da superioridade do equipamento de Ferrari e Williams e conseguiram chegar ao pódio que apresentou Ralf Schumacher em 1º, fazendo dobradinha com Montoya, o 2º, e Michael Schumacher em 3º.

A dobradinha do time de Grove dava a falsa impressão de que a Ferrari encontraria uma rival a altura em 2002. Tremendo engano. Assim que o F-2002 entrou em cena, o campeonato imediatamente se decidiu em favor dos vermelhos.

domingo, 5 de abril de 2009

Malásia - Results & Coments [2]

Que tal uma aula de geografia?

A geografia tem vivido, ultimamente, uma subida em seu nível de exigência no Brasil. Por ser uma disciplina global e por se comunicar com várias outras como biologia, física, matemática, química e história a matéria que estuda o planeta Terra está sendo cada vez mais exigida nos vestibulares e também no ENEM (que aspira a se tornar o substituto da 1ª fase dos exames brasileiros, nivelando por baixo a qualidade dos candidatos. Mas eu nem sei porque falo disso aqui no De Olho). Pela sua natureza multifacetada, a geografia mudou muito de cara nos últimos 30 anos, passando a ser, por vezes, um apêndice da História Geral e englobando áreas de conhecimento como economia e relações humanas. Entenda bem a geografia que se aplica hoje nas escolas (pelo menos nas boas) brasileiras e você entenderá boa parte do mundo atual e, conseqüentemente, a história recente do planeta.

A história e a geografia ocupam algumas de suas páginas discorrendo sobre o eurocentrismo, característica da sociedade ocidental de usar a ótica européia e de privilegiar o Velho Continente como centro do mundo civilizado. Irei me alongar se for discorrer sobre isso, a começar pela influência que a Europa exerce sobre um país que fala português, é predominantemente católico, acha-se branco, e adora F-1, categoria típica e irremediavelmente européia. Sem tocar no fato de sermos os reis do futebol, esporte nascido na Inglaterra de fins do século XIX.

Pois bem. Além disso, a geografia tradicional divide o mundo em grandes zonas térmicas: tropicais, localizadas nas baixas latitudes; temperadas, encontradas em latitudes médias; e polares, as de mais altas latitudes. Interessam à F-1 as zonas tropicais e temperadas, as únicas onde corridas são possíveis. Interessa ao GP Malásia, de forma específica, a zona tropical.

A Malásia, pequeno tigre asiático localizado praticamente no extremo oriente, é um país de clima tropical equatorial, denominação empregada justamente pelo fato de o país estar muito próximo à linha do Equador. O que isso que dizer? É que além de registrar altas temperaturas durante todo o ano, o clima malaio é predominantemente úmido. Zonas equatoriais são locais que registram as maiores taxas de evapotranspiração vegetal de que se tem notícia, fazendo com que a umidade presente no ar atinja níveis próximos de causar desconforto. No final da tarde, com a queda da temperatura, a umidade presente no ar tende a condensar e chuvas regulares e fortes caem todos os dias em locais sob a regência desse tipo climático.
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A aula de geografia básica desse domingo vai para Bernie Ecclestone. Não era difícil para o dirigente comercial da F-1 perceber que marcar uma largada para as 17 horas locais era um risco. Chove constantemente nos fins de tarde malaios, como nos fins de tarde do norte do Brasil. A equação benefício-risco era das mais fáceis: “corrida nesse horário terá a grande possibilidade de chuva. Chuva forte pode paralisar a corrida. Corrida paralisada por muito tempo tornar-se-á inviável, pois no momento em que a relargada for possibilitada em razão da estiagem, o Sol já estará se despedindo.” Só Ecclestone não pensou nisso.

O relativo benefício do parágrafo acima também é contestável. A prova foi marcada para as 5 da tarde na Malásia para que a Europa Ocidental a visse no meio da manhã. A idéia era poupar o europeus de acordar um pouco mais cedo e garantir a audiência. Mas será que vale mesmo a pena marcar uma corrida nesse horário para completar pouco mais da metade de quilometragem prevista? Além disso, a medida da FIA/FOM se mostra um tanto incoerente porque quem gosta mesmo de F-1 segue a categoria na hora que for, seja de manhã, de noite ou de madrugada. Audiência não faltará. Não é isso o que fazemos aqui no Brasil?

Mas quem disse que o Brasil importa? Quem disse que a Malásia importa? O que importa é a Europa, afinal, somos eurocêntricos por natureza. Danem-se os nativos asiáticos que desembolsaram uma nota para ver uma corrida pela metade. O que vale a pena é mostrar metade de uma corrida para os falantes dos idiomas francês, italiano, inglês, espanhol e português, além dos nórdicos que habitam aquela porção de terra que costumeiramente ocupa o centro do mapas-múndi.

Não foi a primeira (e provavelmente não será a última) vez que o lado mercadológico prevaleceu sobre o bom senso na F-1. Os donos do circo continuam a fazer trapalhadas. Dessa vez por não freqüentarem as aulas de geografia.

Mas, e a corrida, hein?

Apesar de tudo, houve corrida. Foram 31 boas voltas que serviram para confirmar algumas impressões que Melbourne não atestara totalmente: a F-1 de 2009 se parecerá com o kart, com adversários se enfrentando curva após curva, passando e repassando o oponente; o KERS faz uma senhora diferença, especialmente na largada, mas não é o suficiente para fazer uma boa corrida se o carro não tiver rendimento, que o diga Fernando Alonso; a Ferrari continua patinando na estratégia, trocando os pneus na hora errada e calçando os pneus errados em seus pilotos. O time italiano continua no zero, com duas corridas já completadas.



Houve mais corrida do que isso. A má largada de Button facilitou as coisas para Nico Rosberg, que passou a liderar o primeiro “terço” da corrida malaia. No meio do pelotão, Fernando Alonso catalisava as brigas, digladiando-se principalmente com Kimi Raikkonen. Vindos do fundo, Felipe Massa e Lewis Hamilton não conseguiam grande desempenho, mesmo equipados com o KERS, sinal de que o dispositivo não é tão essencial às ultrapassagens como é na partida das corridas.

No momento das paradas, Rosberg, o mais leve da frente, foi o primeiro a entrar, seguido rapidamente por Trulli. Caminho aberto para que Jenson Button, à Schumacher, fizesse voltas incrivelmente rápidas, parasse e voltasse em 1º. Coincidentemente era a hora em que os chuviscos começavam a cair, e quase todo mundo optou por equipar-se com pneus de chuva forte, apesar do sereno ameno que apenas se insinuava em Sepang. Começava a crazy race equatorial.

Timo Glock, logo ele, o teimoso dos pneus errados que proporcionou o fim de corrida epilético no último GP Brasil, foi o único a dar a uma bola dentro e escolher os pneus intermediários para o início da chuva. A decisão lhe catapultou do 8º para o 2º lugar. Continuasse a chuva naquele ritmo, e Glock era favorito a vencer a corrida. Mas a geografia malaia não falha: em pouco tempo o que era chuvisco transformou-se em torrencial tempestade, das mais impressionantes de toda a F-1, e a corrida ganhava contornos ainda mais pitorescos. Quem já havia parado para calçar pneus de chuva e voltado para equipar-se com intermediários, precisava retornar de novo aos boxes para optar pelos compostos mais sulcados. E no vai-e-vem dos boxes, Nick Heidfeld pulou na 2ª posição instantes antes de a corrida ser interrompida por absoluta falta de condições.



Daí em diante a corrida acabou, e tudo de interessante que ocorrera até ali estava para ser afogado pela ignorância geográfica de Ecclestone e CIA. A câmera onboard de Rubens Barrichello deixava clara a completa ausência de visibilidade. As rodadas de Vettel e Hamilton, em baixa velocidade, assinalavam a total impossibilidade de o GP Malásia prosseguir. A imagem de Kimi Raikkonen “navegando” o F-60 no circuito repleto de água foi sintomática. Bandeira vermelha acionada, corrida interrompida com pouco menos de uma hora de atividades completadas.

Seguiram-se 50 minutos de jogo político. A FIA dava claros sinais de que a prova seria reiniciada, mesmo com muita água na pista e com o Sol emitindo seus últimos raios, tornando o traçado de Sepang uma potencial roleta russa. Em caso de relargada, seria impossível para os pilotos enxergar, visto que o spray seria intenso e a luz solar já estava reduzia. Os pilotos, representados por Mark Webber, começavam a se indispor com a tentativa da federação de retomar a prova, dada a ausência de condições de segurança. Alonso, Piquet e Raikkonen foram os primeiros a deixar claro que o reinício da corrida não seria muito apreciado. Ao final da longa espera, créditos anunciaram ao mundo, via tv, que a relargada estava cancelada e que o GP Malásia estava terminado.

Em casos de interrupção da corrida, o regulamento é claro: se já estiverem concluídos ¾ da prova, a distribuição de pontos é feita normalmente. Se não, como no caso de hoje, os pilotos classificados do 1º ao 8º lugar recebem metade da pontuação usual. A corrida de hoje marca a volta do ponto “quebrado” depois de quase 20 anos.

Venceram os pilotos, que já haviam demonstrado apreensão com o horário da corrida e a possibilidade chuva. Eles parecem entender mais de geografia do que os dirigentes, que insistem em apenas olhar a F-1 sob a ótica mercadológica. Ela é importante, é claro, mas não é o único meio necessário para organizar uma corrida. Bom senso ainda é requisito essencial a qualquer atividade, e o comando da F-1 parece ter perdido essa característica adorável ao longo dos anos. O que a F-1 conseguiu hoje na Malásia foi matar por afogamento uma corrida que se desenhava interessante. O dilúvio maior que assola a categoria continua a ser o da incompetência.


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GP Malásia, após 31 voltas:


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1. Jenson Button (Brawn), 55min30s622
2. Nick Heidfeld (BMW), a 22s722
3. Timo Glock (Toyota), a 23s513
4. Jarno Trulli (Toyota), a 46s173
5. Rubens Barrichello (Brawn), a 47s360
6. Mark Webber (Red Bull), a 52s333
7. Lewis Hamilton (McLaren), a 1min00s733
8. Nico Rosberg (Williams), a 1min11s576
9. Felipe Massa (Ferrari), a 1min16s932
10. Sébastien Bourdais (Toro Rosso), a 1min42s164
11. Fernando Alonso (Renault), a 1min49s422
12. Kazuki Nakajima (Williams), a 1min56s130
13. Nelsinho Piquet (Renault), a 1min56s713
14. Kimi Raikkonen (Ferrari), a 2min22s841
15. Sebastian Vettel (Red Bull), a 1 volta
16. Sébastien Buemi (Toro Rosso), a 1 volta
17. Adrian Sutil (Force India), a 1 volta
18. Giancarlo Fisichella (ITAForce India), a 2 voltas
19. Heikki Kovalainen (McLaren), a 31 voltas
20. Robert Kubica, (BMW), a 31 voltas

sábado, 4 de abril de 2009

Malásia - Results & Coments [1]

Cavalo Manco

Button levou fácil. A Toyota conseguiu ótimas 2ª e 3ª posições. Rosberg não fez feio no 4º posto. Barrichello e Vettel estariam em melhores posições não fossem as punições pela troca de componentes do carro. Tudo isso, porém, ficou menor assim que a F-1 teve sinais claros do estado de convulsão em que se encontram as equipes ditas grandes até 2008.

Aqui o Ico explica, com autoridade de quem está in loco, cenas da insólita epopéia em que Lewis Hamilton e a McLaren se viram metidos desde o último GP Austrália. Conclusão: além de estar perdida na própria falta de competitividade, a McLaren continua com vocação para se meter em confusões e personalizar culpas que são coletivas.

A Ferrari mostrou que os fantasmas de 2008 ainda vivem em Maranello. Foi o resquício da falta de pulso que estigmatizou os rossos no ano passado que fez com que Felipe Massa ficasse de fora da classificação logo no Q1. A equipe quase acabou com o treino de Kimi Raikkonen junto ao do brasileiro, ao imaginar que os tempos dos pilotos marcados no início do treino se manteriam inalcançáveis ao longo da sessão, talvez iludida pela liderança nos treinos de sexta. Faltou, de novo, um líder que reunisse balls suficientes para enviar os dois ferraristas à pista malaia de novo.

Como se não bastasse a falta de rendimento, as grandes parecem estar perdidas dentro da própria rotina na F-1.

A despeito da pole fácil de Button, das ótimas classificações da Toyota e do grande resultado de Alonso, que levou seu Clio 1.0 ao Q3, a imagem que fala por mais de 1000 palavras é a do cavalo manco. Não, não se trata da mais nova posição sexual inspirada pelos apreciadores do também exótico canguru perneta. Trata-se do status que a Ferrari se esforça para alcançar desde o ano passado, quando as presepadas calamitosas se iniciaram.

Desde que assumiu o posto de diretor-esportivo da equipe italiana, Stefano Domenicali é o homem que mais tem sido obrigado a dar explicações. A orelha deve queimar a cada telefonema de Luca di Montezemolo.

"Explique-se, carcamano!"

Grid de largada, GP Malásia 2009:
1°. Jenson Button (Brawn), 1min35s181
2°. Jarno Trulli (Toyota), 1min35s273
3°. Timo Glock (Toyota), 1min35s690
4°. Nico Rosberg (Williams), 1min35s750
5°. Mark Webber (Red Bull), 1min35s797
6°. Robert Kubica (BMW), 1min36s106
7°. Kimi Raikkonen (Ferrari), 1min36s170
8°. Rubens Barrichello (Brawn), 1min35s651
9°. Fernando Alonso (Renault), 1min37s659
10°. Nick Heidfeld (BMW), 1min34s769
11°. Kazuki Nakajima (Williams), 1min34s788
12°. Lewis Hamilton (McLaren), 1min34s905
13°. Sebastian Vettel (Red Bull), 1min35s518
14°. Heikki Kovalainen (McLaren), 1min34s924
15°. Sébastien Bourdais (Toro Rosso), 1min35s431
16°. Felipe Massa (Ferrari), 1min35s642
17°. Nelsinho Piquet (Renault), 1min35s708
18°. Adrian Sutil (Force India), 1min35s908
19°. Giancarlo Fisichella (Force India), 1min35s951
20°. Sébastien Buemi (Toro Rosso), 1min36s107
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Pitacos malaios de última hora:
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- De repente pode pintar chuva na região de Sepang, e se ela vier, a corrida vira loteria. Se vier com força, somada às baixas condições de visibilidade (a largada será às 17hs na Malásia, para que a corrida acontecesse no meio da manhã na Europa) o GP Malásia pode acabar antes da hora.
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*A falta de posts no dia de ontem ocorreu graças a um problema técnico popularmente conhecido como "falta de tempo." E o problema pode se repetir nos próximos dias.