No final de semana Max Mosley resolveu metaforizar. E juntou a atual ameaça da saída da Ferrari com a morte de Ayrton Senna em 1994, para provar que ao final, a F-1 sempre sobreviverá: “É como o que aconteceu com o pobre Senna. Ele era o piloto mais importante do mundo, quando morreu e a F-1 continuou”.
A noção análoga do velho é quase boa. O problema é que ele atirou pro lado certo, mas errou o alvo.
Sob esse ângulo Senna e Ferrari dificilmente podem andar juntos. Porque a escuderia italiana não está (hipoteticamente) saindo da F-1 por força de uma circunstância inevitável e inapelável como aconteceu com Senna. A Ferrari, junto com Renault e CIA, está ameaçando (e no fundo, todo mundo sabe que é só ameaça mesmo) sair porque, além do esdrúxulo regulamento que cria duas categorias em uma, está insatisfeita com a possibilidade de aumento no número de times disputando o mundial. Com o teto orçamentário fixado em 40 milhões de libras, Lola, USGPE e Prodrive já admitiram que a F-1 passa a ser viável e possível. E com mais equipes disputando o mundial, a divisão dos lucros entre os times seria reformulada e o valor ficaria abaixo do atual. É essa a pedra no sapato de Ferrari e outras montadoras. E é aí que a metáfora com Senna se torna possível.
Porque em 1993, irritado com a saída da Honda do circo e com a medíocre temporada da McLaren em 92 e sonhando com a Williams onde Alain Prost vetara seu nome, Ayrton Senna apelou para a encenação. Ameaçou ir para a Indy (o que seria um duro golpe contra a F-1, já que a categoria americana havia surrupiado Nigel Mansell, campeão de 92 e também insatisfeito com a contratação de Prost por Frank Williams), e também falou em “tirar um ano sabático”, inconformado que estava com a posição mediana que o equipamento lhe permitia disputar. Chegou a simular uma briga com o chefe Ron Dennis e passou a exigir U$S 1 milhão por corrida para competir. A Philip Morris acreditou na história, passou a comparecer com o dinheiro em todas as corridas e Ayrton seguiu calmamente em 93, fazendo o ano em que, se não foi campeão, colecionou apresentações históricas, para, finalmente, sentar no sonhado carro azul em 94.
Aí a analogia é quase perfeita. A Ferrari de hoje e o Senna de uma década e meia atrás apenas se encontraram insatisfeitos com alguma situação momentânea e jogaram com seus respectivos pesos políticos, inteligentes e sabedores da força que seus nomes carregam. Senna conseguiu o que queria há 15 anos atrás, talvez porque percebeu que política também é imposição de força. E isso já faz parte da sintaxe da F-1 há bastante tempo.
Bem, o texto tá todo lá no Tazio, não vou me dar ao trabalho de fazer o ctrl + c ctrl + v.
Não sou o maior fã do rapaz. Não contesto sua capacidade. Só não costumo concordar com o que ele fala e faz fora das pistas. Mas isso também é irrelevante, porque, para fins de discussão em um blog sobre F-1, a pessoa Lewis Hamilton precisa ser menor do que o piloto Lewis Hamilton.
Antes de julgar (se é que me cabe fazer isso. Mas todo mundo, intimamente, faz) se Lewis fala o que fala porque não está mais na ponta da tabela, acho que é a hora de dizer algo com o qual quase todos os que acompanham esporte a motor pensam: como é chata a politicagem que permeia a categoria que se diz máxima.
É chato para os pilotos, e imagino como deve ser frustrante para profissionais da área, que passaram alguns anos estudando para atingir o topo de sua área e são obrigados a reportar a mais nova reviravolta no caso dos velhinhos engravatados que resolveram ter uma briga de madames.
É chato também para palpiteiros de plantão, acredite. Há momentos em que o esporte passa a ser apenas um detalhe no mundo de cifras e interesses milionários da F-1. E tudo isso tira o tesão de criar, de inventar, de interagir, simplesmente porque não foi para falar de política que criei um blog. Já vivo questionando qual o papel de um amador num universo como a blogosfera, com profissionais altamente preparados trabalhando no blog ao lado. Questiono diariamente se o que faço aqui possui alguma serventia e se uma pseudo-análise esportiva da F-1 feita por mim é relevante para alguém. Imaginem então, o que eu posso dizer a respeito de algo que me incomoda muito, o jogo de interesses feroz dos bastidores, olhando para tudo de longe? Não será nada que valha a pena.
Por isso eu prefiro me calar. Querem acompanhar as ameaças de Ferrari e CIA contra Mosley e sua trupe? Os endereços dos sites especializados estão aí ao lado. Blogs de profissionais da área também não faltam e os tais sites os divulgam. Só abro a boca para concordar contigo, menino Hamilton.
Unilateralismo. Essa parece ter sido a palavra-chave escolhida por alguns personagens do circo da F-1 para demonstrar insatisfação com os rumos tomados pela categoria. Declarações em tom ameaçador têm ditado o ritmo do noticiário durante essa semana.
A Ferrari se reuniu ontem em Maranello e decretou: se o limite orçamentário passar, a equipe não disputa o mundial de 2010. A tática dos italianos é antiga e conhecida. Consiste em pressionar os opositores acenando para a torcida a possibilidade de a F-1 perder sua equipe mais famosa e tradicional. A notícia da possível saída da Ferrai do mundial foi recebida com ceticismo na Europa. Pouca gente acredita que a real retirada se concretize, até porque o debate em torno do teto ainda está no começo.
Até porque o problema não é o teto em si. A grande cláusula que incomoda as equipes é a que cria duas categoria dentro de uma só. Recapitulando, na semana passada a FIA divulgou um rascunho do regulamento para o ano que vem, e nele consta o tal teto orçamentário de 40 milhões de libras. Até aí os problemas não são tão graves. Limitação de custos é algo que há muito tempo é aguardado na F-1. O problema é que a FIA instituiu duas Fórmulas-1, uma para quem adotar o teto (na prática, equipes pequenas e garageiros sem ajuda de montadoras, caso único na F-1 de hoje, a Williams) e outra para quem quiser romper o limite de gastos (maioria esmagadora do grid de hoje, as montadoras que possuem grana para torrar).
Para os competidores que admitirem disputar o campeonato de 2010 sob o teto, várias regalias seriam permitidas, como uso de motores sem limitação de giros, testes ilimitados em túneis de vento e introdução de apêndices móveis, entre outras. Para quem puder e quiser trabalhar acima do teto, o desenvolvimento do carros ficaria praticamente como hoje, engessado, com motores congelados e testes rigorosamente diminuídos. Ou seja, a F-1 viraria duas e a união entre as equipes estaria em risco.
Sob tudo isso há o reincidente pano de fundo político que permeia a F-1. As sucessivas mudanças e a falta de solidez da F-1 a médio prazo se dão porque quem dirige a categoria está menos preocupado com coerência e mais com poder político. Max Mosley, o todo-poderoso presidente da FIA está claramente engasgado com a união das equipes sob a Associação dos Times de Fórmula-1 (em inglês, FOTA), que se tornou um contraponto político importante o suficiente para incomodar, e o tal regulamento para o teto orçamentário é nada mais do que uma tentativa de minar a agremiação das equipes. Mosley sempre foi unilateral por natureza e jamais se contentou apenas em regular a F-1. Ditar as regras faz parte de seu estilo e ao criar condições vantajosas para alguns e onerosas para outros, Mosley consegue semear discordâncias entre as equipes, retirando da FOTA a coesão que lhe foi peculiar até aqui. Assim, Mosley fica mais perto de voltar a imperar sobre a F-1 como sempre fez.
O prazo para inscrição das equipes para o mundial de 2010 termina no próximo dia 29. Mas a discussão apenas está começando. E o racha entre equipes e FIA deixou de ser possibilidade para ser realidade.
Como A1-Ring saiu do calendário em 2003 para nunca mais voltar, achei que jamais tocaria no assunto "Áustria-2002" de forma profunda, específica.
Mas eis que, em um dia das mães, como aquele de 2002, Rubens Barrichello é protagonista de uma não-vitória, como aquela de 2002.
Há 7 anos uma outra situação (um time claramente hierarquizado), uma outra equipe (Ferrari), um outro companheiro (Michael Schumacher, com ares de manda-chuva), o mesmo engenheiro-estrategista: Ross Brawn.
No último domingo, porém, o script parece ter se repetido em alguns pontos: Barrichello fez uma corrida segura, rápida, veloz, mas acabou em segundo. Domingo passado não foi na última curva, na última volta, a 50 metros da linha de chegada. Mas ficou no ar uma sensação de deja vu.
Você, leitor, acha que a sensação se justifica? Brawn foi novamente acometido pela síndrome do "vamos preservar nosso piloto mais bem colocado"? Ou simplesmente os engenheiros de Jenson Button "leram" a corrida de forma mais eficiente?
Dúvidas, muitas dúvidas. Os próximos dias e o comportamento da Brawn na próximas corridas nos dirão mais.
Seria o GP Espanha, finalmente, a vingança de Rubens Barrichello contra o blogueiro falastrão que finalmente queimaria a língua?
A resposta é quase.
Porque a corrida de Barrichello foi boa, porque o brasileiro foi rápido durante toda a prova e correu disputando a vitória segundo a segundo com Jenson Button. Mas Rubinho não fez o suficiente.
A fase de Button é excepcional.
Mas mesmo que vencesse, é bom que se diga, Rubinho não estaria se vingando de ninguém, pelo menos não nesse blog. Por que o que andou sendo contestado por aqui há alguns dias foi o Barrichello fora da pista. Dentro dela, são outros 500 e outra esfera de discussão.
Mas o fato é que Jenson Button fez uma corrida segura e a mudança de estratégia operada em sua corrida se mostrou tremendamente correta na dinâmica da prova espanhola. 41 X 27, diferença que deixa Barrichello, o único que parece ter condições de superá-lo, obrigado a virar o jogo. Por mais que pareça difícil.
Quanto ao resto da corrida, foi mais uma amostra da F-1-Brawn. Jogo de xadrez, sem contato, distante, frio, psicológico, higiênico. Ao estilo das melhores dobradinhas Schumacher-Barrichello.
O tempo é curto, por isso, vamos em tópicos:
- Falamos ainda do estilo Brawn de vencer corridas. Certo? Errado? Eficiente, me parece ser a resposta. Porque F-1 jamais foi kart, e enfrentamento corpo-a-corpo raramente fez parte da sintaxe da categoria. O que não deixa de ser irônico (e uma tecla na qual insisto em bater) é ver a categoria tão igual aos anos Schumacher, justamente no momento em que várias mudanças regulamentares foram introduzidas e quando a atual geração começava a se desapegar da lembrança do heptacampeão. São curiosas as voltas que esse mundo dá;
- Jenson Button gostou do papel de predador. O inglês vestiu a fantasia de caçador e se sentiu confortável nela. O inglês começa a pintar como uma figura felina, sempre à espreita, preparando o bote. Button começa a adquirir auto-estima e ares de piloto dominador. Começam a surgir na face de Jenson os traços do cara com mentalidade de predador.
Como que faz bem estar em um carro de ponta;
- Pra Barrichello foi quase, mais uma vez. A manutenção da estratégia de três paradas se revelou ineficiente. Difícil entrar no pantanoso terreno do mérito, mas Barrichello fez uma corrida boa. Rápido, sem esmorecer, mas não suficientemente veloz para superar o “plano B” do companheiro.
O necessário numa hora dessas e deixar a pose de presa e assumir-se como caçador, como Button parece já ter aprendido. Explicações depois da corrida já não fazem diferença;
- O que acontece com a Ferrari? Complicado responder tão depressa. Clássico é dizer: os anos 80 parecem ter voltado a assombrar o time italiano. Paixão rubra, clamor da torcida, história tradicional misturados à boa vontade do staff, mas com uma pitada de erros circenses. E, como todos os erros circenses, os da Ferrari são infantis.
Alguns problemas de saúde me impediram de blogar durante a semana. E, infelizmente, compromissos familiares vão me ocupar até segunda-feira.
Não sei se é o caso de pedir desculpas aos leitores (alguém realmente liga para o que é escrito aqui?), mas faço questão de deixar claro que não me resta outra alternativa.
A FIA definiu: em 2010 o campeão será o piloto que vencer mais corridas. Ou seja, a federação ressuscitou a medida que já havia sido amplamente criticada em março, quando a FIA acenou com a proposta de implantar a medida para o campeonato desse ano.
Ainda é cedo, a regra ainda vai gerar muita discussão e até o início da temporada 2010 muita água ainda passará sob a ponte. Mas a insistência na regrinha maluca é surpreendente.
Enfim, não é preciso parar e discorrer longamente sobre tudo o que uma regra como essa representa e sobre como ela desconstrói toda a história dos campeonatos da F-1, rompendo um dos cânones da categoria, a regularidade.
Também não vou me repetir em dizer como a FIA/FOM anda desesperada para fazer da F-1 um show, uma overdose de emoção quase sempre mentirosa e artificial. Já falei disso em uma infinidade de posts e já estou enfadonhamente repetitivo.
Só não vou resistir a fazer uma crítica pequena: para comandar uma mega-evento-mundial como o campeonato de F-1 é exige-se, no mínimo, coerência. E isso anda faltando aos dois senhores que comandam o circo. Max Mosley e Bernie Ecclestone insistem em nortear a F-1 sem um plano de vôo. As medidas são tomadas e editadas sem uma séria reflexão e um debate maduro, apenas sob o calor da emoção e sob a intensa necessidade da afirmação da força política da FIA e da força econômica de Ecclestone. Os dois senhores imperam na F-1 como se fossem uma espécie de Sílvio Santos e como se a F-1 fosse um SBT. Não há planejamento, a programação é mudada a cada semana, mas o público continua fiel a programas tradicionais como o Chaves e o Chapolin.
Aliás, que personagens do circo fariam o papel de segurar o público diante de uma F-1-Baú da Felicidade? Uma equipe? Um piloto? Um sentimento? Uma fixação somente explicada por complexos estudos psicológico-freudianos?
Vai saber... Mas talvez agora o SBT possa direcionar o estudo de seus telespectadores nos utilizando como cobaias. Afinal entre nós, fãs de corridas de F-1 e os acompanhantes do canal de Sílvio Santos não há diferenças. Não ligamos para mudanças esdrúxulas na rotina do nosso objeto de adoração. Só exigimos que ele continue a existir, mesmo que totalmente desfigurado.
Apesar de não ter me interessado muito quando soube da entrevista nas chamadas da Globo, parei para assistir ao Na Estrada, quadro do Esporte Espetacular comandado por Galvão Bueno. O convidado de hoje foi Rubens Barrichello.
Uma entrevista num tom intimista, com a presença da família, algo quase agradável. Quase se Rubinho não continuasse com a mania de se portar como vítima de uma terrível teoria da conspiração em que ele sempre é inocente.
Não é pancadaria gratuita contra Barrichello. É apenas uma chamada à realidade.
Para começar, preciso dizer que eu e Rubinho nos aproximamos na superficialidade. Enquanto eu via o início da matéria, me escandalizei com a beleza e o luxo de seu sítio no interior do estado de São Paulo. “Não é ídolo mas fez a vida”, pensei, numa babaquice que me revoltou instantaneamente. Claro que sim, Rubinho usufrui de um excelente nível de vida. Ou eu queria que ele tivesse vergonha de ser rico? Claro que não, Barrichello tem o nível de vida que sua profissão lhe proporciona e, até onde se sabe, prosperou de forma decente e honesta. Justíssimo! Me desculpei intimamente pelo pensamento raso. Coisa de latinoamericano estigmatizado pela patrulha esquerdista que nos rodeia, especialmente no meio acadêmico. Gostaria então que Rubinho também fizesse uma reflexão mental de (pelo menos) duas passagens muito inapropriadas em sua fala:
- “Ele [Michael Schumacher] faria qualquer coisa para ser campeão. Eu faço quase tudo para ser campeão, mas não o que ele faria”.
Essa é clássica e talvez seja a grande diferença entre um piloto bom, caso de Rubinho, e um que se coloque acima da média, caso de Schumacher. O piloto acima da média tem mesmo de querer fazer tudo para ser campeão, e desestabilizar os companheiros de equipe está dentro do pacote. Ser intransigente a ponto de considerar-se o dono do mundo foi um traço de personalidade observado em muitos dos maiores pilotos da história. Ayrton Senna e Nelson Piquet foram mestres em fazer isso e são heróis. Schumacher é vilão, só por não ser brasileiro? Ou seria só por que sua intransigência emudeceu a exuberante capacidade de um brasileiro?
Seria interessante largar o maniqueísmo barato e partir para a realidade, Mr. Rubens. Não há cordeiros na F-1, só lobos. Se deseja um ambiente lúdico e inocente, o mais recomendado é um campeonato de Gran Turismo na categoria infantil. Assim como é muito fácil para Galvão Bueno fazer uma reportagem em tom de absolvição, também é mais cômodo ser a eterna vítima. É mais cômodo, mas nem sempre mais condizente com a realidade.
- “Quando eles [Ralf e Michael Schumacher, em 2003] perderam a mãe e eu fiquei atrás dos dois em Ímola, vi eles disputando uma freada, batendo rodas (...) aquilo pra mim não caiu muito bem”.
Eu não sei qual é o nível cultural de Rubens Barrichello. Desconheço o que ele tem como verdade em seu entendimento de mundo. Mas me parece algo universal e comum a todos os seres humanos que julgar uma pessoa por um ato isolado é um tremendo pecado. Não no sentido cristão-apostólico do ato, mas sim no da honestidade necessária a toda relação interpessoal.
É possível rotular os Schumacher como frios e insensíveis tendo como base os acontecimentos de Ímola-03? Sim e não. Depende do objetivo de quem fala.
Alicia Klein, nas páginas 230 e 231 de A Máquina, me ajuda a explicar:
O episódio da morte da mãe de Schumacher, em 20 de abril de 2003, reforça a idéia de robô de coração gelado. A imagem do homem caloroso começava a se fixar no senso comum, até que a decisão – sua e do irmão Ralf – de disputar uma prova seguida à notícia do falecimento de Elisabeth Schumacher pôs tudo a perder. Em sinal de luto, Michael correu com uma faixa negra no braço e Ralf com o capacete pintado de preto.
Mas se ambos optaram por correr, isso não explicaria alguma coisa sobre a família? Rolf, o pai, separara-se da mulher seis anos antes para se casar com uma jovem senhora. "Meus pais se mataram de trabalhar dia e noite, durante a vida inteira", conta Michael. "Quando não precisaram mais e finalmente tiveram tempo para si, aí perceberam que na verdade não tinham absolutamente nada em comum". A partir daí, Elisabeth mergulhou de vez suas mágoas na bebida, falecendo em decorrência de uma cirrose hepática causada pelo alcoolismo. Afinal, quem pode julgar o que se passa na casa alheia, como cada um reage a determinadas situações, o que sente uma pessoa ao saber da morte de um ente querido? É certamente difícil compreender que Michael não só tenha participado daquele GP de San Marino, como o tenha vencido; sua formação cultural, nacional, emocional, familiar, entretanto, não pode ser colocada de lado para simples e superficialmente taxá-lo de insensível.
A reação da imprensa e de personalidades alemãs ao fato esclarece um pouco o comportamento desse povo. "Eu respeito a decisão. Claro que não foi fácil para eles tomá-la", revelou Rudi Voller, à época técnico da seleção de futebol da Alemanha. "Cada um deve ver por si. Agora uma coisa é certa: um piloto de Fórmula-1 tem de ser julgado por outros critérios. São pessoas excepcionais, que em uma situação excepcional se comportam de modo totalmente diverso da gente", argumentou o então presidente do Bayern de Munique e ídolo tedesco, Franz Beckenbauer. O periódico Suddeutsche Zeitung ressaltou: "o carro é um refúgio. O lugar de trabalho onde dominam as regras e a rotina, onde as pessoas se sentem bem em momentos difíceis". Frankfurter Allgemeine Zeitung: "Onde um piloto de F1 encontra sua tranqulidade? No carro de corrida. Eles fugiram, antes de serem confrontados com perguntas do tipo ‘como podem se concentrar?’ A participação dos irmãos mostrou onde um piloto se sente mais seguro em um dia tão horrível". O berlinense B.Z. engrossou o coro: "Os Schummies pareciam ter entrado no carro para fugir".
Ou seja, é muito fácil taxar os Schumacher’s de insensíveis por um fato como esse. Dependendo das intenções de que o faz, os irmãos alemães podem ganhar contornos de novos Hitler’s. É exagero, mas num caso desses é mais fácil exagerar do que se prender aos fatos.
É preciso tomar cuidado com a tentação do caminho mais fácil. Não sou advogado da família Schumacher nem odeio Rubinho a ponto de desclassificar tudo o que sai de sua boca. Só enxergo falta de responsabilidade da parte de Barrichello ao dar determinadas declarações. É preciso ser responsável e pesar as palavras antes de ir para frente de uma câmera da maior audiência do país. Cobro, intimamente, essa responsabilidade do William Bonner, do Cid Moreira ou do Galvão Bueno, quando esse se põe a usar eufemismos para relativizar o mau desempenho dos brasileiros e supervaloriza as vitórias. É preciso cuidado ao falar com milhões de pessoas via tela da tv. Especialmente quando o raciocínio usado possui a profundidade de um pires.
Como já deu pra reparar, o De Olho tá de visual novo. O escriba, no entanto, continua sendo o mesmo de sempre.
A mudança não tem como objetivo comemorar nenhuma efeméride. Bem, não necessariamente. Por uma tremenda coincidência essa reformulação de espaço ocorre no dia em que o blog comemora 11 meses de atividades oficiais. Mas foi um grande acaso, já pensava em mudar os ares do blog há semanas.
O antigo layout me incomodava principalmente por deixar o texto muito compactado, espremido. Nesse novo layout há mais espaço para o texto, para fotos e para vídeos. Bem mais funcional do que o antigo.
Espero que fique mais prático também para os gatos pingados que me lêem.
O dia de hoje praticamente exige uma palavra. Ayrton Senna é um personagem sobre o qual todo mundo tem uma lembrança, uma passagem, um momento para recordar. O gigantismo de sua figura e de sua memória tornam Ayrton um personagem paradoxal e simultaneamente fácil e difícil.
Hoje completam-se 15 anos da morte de Senna, em San Marino, na Itália. Sua morte está debutando. Mais do que isso, em 2009 comemoram-se 25 anos do debut do próprio Ayrton, em 1984, na miúda Toleman em que o tricampeão estreou. Há 25 anos o garoto tímido e franzino começava a se transformar no campeão doentia de desesperadamente ávido pela vitória. E a F-1 ganharia seu personagem mais representativo.
Senna colecionou desafetos, comprou brigas, valeu-se da força política de seu nome em determinados momentos e foi traído pelo excesso de confiança em outros. Em 10 anos de F-1 teve tempo de ser perseguido por adversários, que viam nele um rival forte demais, sejam eles outros pilotos ou cartolas como o francês Jean-Marie Balestre, presidente da então FISA. Os boatos sobre sua suposta homossexualidade, levantados por Nelson Piquet aliados à inesquecível desclassificação no GP Japão de 1989, o tornaram figura com fama de vingador, que fez justiça com as próprias mãos em 1990. Curioso notar como o discurso sobre a ética foi abandonado para que aplausos se fizessem. O mundo parecia ter esquecido que a manobra de Ayrton sobre Alain Prost em Suzuka-90 tinha sinais de premeditação. Somente figuras que realmente têm noção de sua força conseguem virar a opinião comum a seu favor. Além de seu espetacular talento dentro das pistas, Ayrton tinha plena consciência da reverberação que seus atos causariam fora dela.
Mas Senna foi muito maior do que sua picuinha com Prost. Foi o cara do GP Mônaco-84, que chegou em 2º tendo partido na 13ª posição, sob chuva. Foi o timoneiro que navegou a Lotus no encharcado circuito de Estoril em 85 para vencer sua primeira corrida com autoridade. Foi o guerreiro que não se deu por vencido quando o motor de sua McLaren apagou na largada de Suzuka-88 e foi buscar a vitória e o primeiro título. Foi o herói do povo que completou o GP Brasil com apenas uma marcha de seu carro funcionando em 1991. Foi o gênio habilidoso que segurou a Williams de outro mundo de Nigel Mansell em Mônaco-92 e deu uma inigualável aula de pilotagem sob chuva em Donington Park em 1993. São inúmeras as lembranças da genialidade de Ayrton. São poucos (eu me arrisco a dizer que é nenhum) os pilotos que possuem uma gama tão vasta de memórias tão fantásticas.
Tudo isso, catapultado pelo ardor midiático, fez de Senna um ícone de grandeza maior do que a própria F-1, em determinados momentos. Pode-se acusar o exagero imagético de várias formas. O que não dá pra fazer é negar que seu objeto de adoração era, realmente, uma figura diferenciada. Senna observou isso naquela que considero sua melhor frase: “não há marketing que sustente um blefe”. Por mais que a massificação de sua imagem o tenha lançado ao panteão dos ídolos que não podem ser criticados, Ayrton Senna realmente pertenceu à classe dos maiores homens em suas respectivas vocações. Senna nasceu para guiar e o fez com maestria. Não há marketing que sustente um blefe – disse o tricampeão. Ayrton, de fato, foi genial.
Senna, óbvio, não foi só perfeição. Foi humano, como a rixa com Prost deixou claro, e também caiu na vala da pirraça. A opinião pública o costuma isentar dessas lembranças. Talvez exista um motivo. Durante a semana misturei Senna, Che Guevara e Jesus Cristo num só balaio de gatos numa caixa de comentários do Cadernos. Difícil encontrar figuras com histórias tão coincidentes de perseguição, glória e ocaso. Perseguidos, os três fizeram de seus perseguidores os algozes. Vencedores, encontraram a glória de serem reconhecidos pela massa idólatra. No fim, tiveram sua expiação transformada em calvário público para entrarem, infalivelmente, na história, e não mais serem esquecidos como símbolos de positividade.
Talvez sua maior vitória tenha sido a garantia da vida de seus pares nos anos subseqüentes ao seu desaparecimento. Sua morte ao vivo causou um impacto que tornou a segurança uma obsessão dos organizadores da F-1. E há 15 anos piloto algum morre numa pista de F-1. Engana-se quem pensa que a categoria não assistiu a acidentes tão graves quanto os de Senna. Alguns até foram piores. Mas o máximo que se viu foram pilotos momentaneamente desacordados.
Ayrton Senna, sobretudo, exprimiu a imagem do cara que nunca desistiu. Sedento por vitórias, sonhou com a Williams que lhe fez inveja em 1992 e 1993. Quando, finalmente, conseguiu sentar-se no cockpit azul não completou uma só corrida. Morreu no carro em que sonhava estar e deixou a F-1 órfã de um herói absoluto. Nesse, e em muitos outros papéis, Senna continua insubstituível. É um cara grande demais para ser analisado por um blogueiro amador de 20 anos. Da mesma forma, é grande demais para que um dia como esse passe em branco.
Capixaba de Vitória, 21 anos, Fábio tem outra paixão motorizada além da Fórmula-1: os ônibus. Não chega a ser um busólogo fanático, apesar de trocar uma viagem de carro ou de avião por uma de ônibus no ato. Ainda em se tratando de escolhas não-convencionais, é torcedor do Fluminense, e espera por um desconto no dia do juízo final por tamanho sofrimento ainda em vida. Apesar de apreciar um bom jogo de futebol, nunca foi bom de bola na terra do futebol. E, numa hipótese nunca completamente abandonada, pode ter se estigmatizado por isso. Preferiu então passar as manhãs de domingo vendo carrinhos dando voltas em círculos a passar as tardes vendo 22 homens correndo atrás de uma bola.
Fábio Andrade já editou um blog próprio, o De Olho na F-1, durante um ano, entre junho de 2008 e junho de 2009. Gostou do que viveu e do que aprendeu na blogosfera, não resistindo ao convite de Felipe Maciel para voltar a blogar, agora no Blog F-1.
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nele, eu posso seguir seus passos,
posso ver o mundo inteiro no seu olhar.
posso ser eu mesmo sem as amarras que uso,
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